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Revendo Homem-Aranha: Parte 2 de 3 – A DUALOGIA WEBB

O clima de mudança da nova trilogia veio com força. Mark Webb estava em alta com críticos e público depois de sua dramédia romântica 500 Dias com Ela (2009) e parecia o nome adequado a levar em frente um filme de super-heróis com traço de romance, como já eram (de certa forma) os filmes do Raimi e como costumava preconizar Stan Lee sobre seu personagem teioso. A indicação de que o interesse amoroso do herói seria a saudosa Gwen Stacy e não a popular Mary Jane não só reforçou esta ideia como causou um frisson nos fãs mais antigos. Para o papel de Peter Parker/Homem-Aranha, outro proeminente nome foi convocado quase de surpresa.

Andrew Garfield ainda era um ator pouco conhecido, mas promissor depois de sua participação em A Rede Social (David Fincher, 2010), como o (brasileiro) Eduardo Severin, quando foi chamado para assumir o posto de Homem-Aranha. O anúncio, por sinal, foi uma das mais estranhas situações envolvendo a escalação de um personagem: uma comitiva de imprensa foi convocada às pressas e Garfield, quando teve seu nome chamado num palco onde estavam Laura Ziskin e Avi Arad (produtores) e Webb (diretor), parecia tão surpreso quanto todo mundo que estava ali, como se tivesse caído em algum tipo de pegadinha. Com o passar das semanas, no entanto, o ator fez muito em termos de publicidade para mostrar que estava tão feliz em interpretar Peter quanto honrado e que poderia fazer jus ao peso e importância da icônica figura – esses “extras” publicitários reforçaram a carismática e jovem figura de Andrew e o “frescor” que ele daria ao personagem.

Em termos de “preparação de terreno” o filme vinha com mensagens quase bagunçadas: havia o tom de “resgate dos primórdios” do Aranha, com Garfield tendo uma compleição física que lembrava muito mais o Aranha de Steve Ditko que o de John Romita Sr. e por anunciarem que o vilão seria o Lagarto com design baseado no desenvolvido originalmente pelo co-criador do Aranha. Ao mesmo tempo, falava-se bastante na onda de renovação, procurando se inspirar nas histórias de Brian Michael Bendis em Spider-man Ultimate em que os poderes de Peter e todo seu portfolio de vilões tinham alguma relação com seus pais, não sendo mera obra do acaso – novidade recebida com estranheza por muitos fãs. A indicação de que a estrela em ascensão Emma Stone (que ganhou considerável destaque por Zumbilândia, Suberbad e A Mentira) faria Gwen Stacy e que esta seria uma promissora cientista, indicava a ideia de um elenco mais próximo aos adolescentes da época. Tudo soava como novo, mas meu sentido aranha de que havia algo errado não parava de “tilintar” (que termo horrível).

À primeira vista, The Amazing Spider-Man (Mark Webb, 2012) é um filme encantador, muito mesmo. As cenas do Aranha balançando entre os prédios são empolgantes, ousadas e distanciam-se da visão de Raimi – com ecos dos desenhos de Erik Larsen e principalmente Mark Bagley. As lutas e ação do filme são intensas e bacanas de ver. Andrew Garfield é um poço de doçura e faz com Emma Stone um par romântico demasiado convincente – mesmo pra um casal que mal termina uma conversa – e tanto seu Peter quanto a Gwen Stacy dela são jovens, simpáticos e moderninhos, com piadinhas bem colocadas, roupinhas descoladas, skates e manobras. O Homem-Aranha de Garfield, além de reforçar a ideia de que Peter é um gênio tecnológico, aproxima-se mais das crianças, lembrando com extrema precisão o quanto ele é um herói da molecada e as cenas que considero mais emocionantes dos dois filmes de Webb envolvem crianças – um elemento que deveria sempre estar presente nos filmes do Aranha. Até o lance do “estar em idade escolar” sustenta essa ideia, pois, enquanto no filme de Raimi, Peter conclui o colégio na passagem entre o ato um e dois, nos filmes do Webb ele só se gradua no começo da sequência.

Outro considerável destaque que dou é ao tio Ben de Martin Sheen. Apesar de adorar o Ben de Cliff Robertson, Sheen toma o personagem para si e injeta uma carga gigantesca de paternidade gentil e carinhosa, apesar de ainda decidida e direta. Acredito que tenha tido mais tempo de tela que Robertson e fez valer cada segundo.

Fora isso, o filme sofre dos mesmos problemas que a terceira parte da trilogia de Raimi e cria outros tantos deveras desnecessários: tem coisas demais acontecendo e uma ansiedade imensa de construir um “universo” a partir dos pais de Peter, o que o faz perder o foco inúmeras vezes – Garfield, por sinal, poderia ser conhecido como o Aranha que não termina nada: não encontra o cara que matou o tio, não vai atrás das aranhas que lhe deram poderes, desiste de saber sobre os pais, não termina o jantar na casa da Gwen… impossível pro moleque terminar um projetinho que seja. Fora que os personagens coadjuvantes sofrem imenso destrato: Norman Osborn sequer tem um rosto, Dr. Curt Connors desperta algum interesse, mas cai no lugar comum do “enlouquecimento por poção”, e Capitão Stacy, um personagem importante pra mitologia do Aranha nos quadrinhos, depois de quase duas horas de antipatia, recebe uma morte tão insossa que falar que serviria à trama seria superlativizá-la, e nem vou lembrar do demérito que é ter uma atriz do calibre de Sally Field e entregá-la falas batidas entre um ou outro gritinho de preocupação.

Uma coisa que se pode dizer desse filme (e, infelizmente, do seguinte) é que existe uma constante pressa de se chegar a certos “pontos-chaves” das histórias do Aranha: Stacy tem que morrer agora, Peter tem que ser o Aranha agora, Ben tem que morrer agora e vai vai vai… não se tem o devido tempo (ou fôlego) pra se apegar aos personagens coadjuvantes ou entender as motivações dos principais, as coisas são o que são e o filme tem de seguir a 200km/h. Nisso, toda a trama base que, em teoria, sustentaria vários filmes, que seriam as experiências do pai de Peter, parece um tipo de ruído que atrapalha a já aperreada narrativa, fazendo com que Peter estoure ou se entristeça ou seja mal-agradecido com as pessoas que se importam com ele por causa deste romantizado “devaneio” hollywoodiano de menino-órfão-abandonado que precisa, mais que tudo no mundo, saber quem são os pais para entender quem ele realmente é (mensagem, que, por sua vez, se dilui durante quase todo o filme e retorna no fim como um lembrete preso na porta da geladeira).

Com tudo isso, o retorno de Homem-Aranha à tela grande – pós-Raimi – é um misto de sentimentos confusos: é bom, é divertido, mas é complicado de entender, chato de levar até o fim, tem momento que é super empolgante, tem momento que você quer avançar e eu ainda não entendi se ele termina bem ou mal. Até seus números são esquisitos: arrecadou 758 milhões, o que demonstra que foi um sucesso, mas ainda menos que o primeiro de Raimi, que papou 825 milhões. Arrecadar bem quer dizer que ele foi bem recebido? Arrecadar menos que o de 2002 quer dizer que ele foi mal recebido? – claro, não sou eu que levanto em si essas conjecturas, mas críticos e fãs pareciam se dividir e qualquer coisa era argumento para salvar ou matar esta produção. No fim, como sempre, o que prevaleceu foi a decisão dos produtores: “Simbora fazer mais um Aranha do Garfield”.

Entre 2012 e 2014 (o tempo de diferença entre The Amazing Spider-Man 1 e 2), a Marvel sozinha lançou 5 filmes de super-heróis. Dentre eles, a conclusão da trilogia do Homem de Ferro (Shane Black, 2013) e o ambicioso (ao menos para a época) Os Vingadores (Joss Whedon, 2012), e a produtora-editora parecia estar só se aquecendo (como sabemos bem). Particularmente, eu sempre imagino a pressão que é fazer um filme de super-herói, por mais popular que ele seja, em meio a enxurrada de produções e ideias até então impensadas – “vários filmes interligados? Isso nunca vai dar certo. Multiverso? Como se explica isso?” – e este foi o cenário que a confusa dualogia de Webb enfrentou entre as duas produções.

Antes do filme ser lançado, altas expectativas foram levantadas: um uniforme com os grandes olhos arredondados (ainda hoje meu uniforme preferido de todos os Aranhas), o retorno do Duende Verde, Jamie Foxx como o vilão Electro, a entrada do Rhino e… toda a explicação das coisas que ficaram inexplicadas no primeiro. Além disso, os vídeos promocionais já apontavam para melhores cenas de ação, mais do célebre humor aracnídeo que os fãs de quadrinhos adoram e Peter e Gwen Stacy juntos. Lembro que existiam tantas mensagens empolgadas na web como este filme sendo aquele que fincaria o pé de vez no que seria o definitivo universo do Homem-Aranha nos cinemas que eu só conseguia ver um resultado pra tudo isso: frustração. E ela veio forte.

As coisas positivas do primeiro filme se mantiveram: a adorável relação entre Peter e Gwen, Aranha amigão da vizinhança e da garotada, protetor do povo com uma piadinha sempre bem encaixada, cenas de teias entre prédios – com detalhes para o uniforme reagindo aos fortes ventos que são maravilhosos de se ver – lutas com uma ação tremendamente bem-feita e um dos melhores usos do sentido-aranha (a magnífica cena da primeira luta dele com o Electro salva 60% do todo). Sério, o “tom” do filme é vertiginoso.

Infelizmente, os defeitos também retornaram: muita coisa acontecendo em muitas frentes, vilões novamente loucos e insanos (gente, vamos parar de apelar para isso, né?) e desta vez caricatos, mas sem o charme dos de Raimi, subtramas demais que nunca realmente se concluem e o Peter mais bagunçado da cabeça que eu já vi: ama Gwen, quer ficar com a Gwen, sente culpa, abandona a Gwen, stalkeia a Gwen (isso é errado, ô ruela), e fica com ela, mas não pode ficar com ela… o jogo de vai-e-vém de Peter já teria feito uma pessoa normal desistir de ser amigo dele, imagina uma mulher bem resolvida – tem um momento da trama que “a força do amor” é milagrosa demais para qualquer espectador engolir o relacionamento de Peter e Gwen – e isso levando em consideração que a sinergia de Garfield e Stone (já como namorados na época) é perfeita por si só. Em HA 2 de Raimi, o Peter de Maguire tem um dilema até bem parecido, mas seus limites são bem definidos: enquanto ele é o Aranha, ele titubeia e nada faz, mas quando ele “perde” os poderes e decide não ser mais o herói, o cara vai com tudo para falar de seu amor pra Mary Jane, ou seja: sem poderes, “te amo”; com poderes, “te amo, mas…”. O Peter de Garfield não consegue ter esse mesmo limite e na mesma cena em que ele baba pela Gwen, ele tá dando tchau, e isso se repete até a exaustão.

No fim, como meio que não saiu do lugar e, para piorar, teve uma arrecadação menor do que a de seu antecessor, Webb e seu Aranha foram cortados dos planos da Sony e, apesar de terem conseguido uma pequena fatia de empolgados fãs, não foi o suficiente para sustentarem os planos a longo prazo de Avi Arad e Laura Ziskin, que foram cortados (ou pediram pra sair) da chefia dos filmes do Aranha e mais uma vez o personagem entrava em um incerto limbo hollywoodiano.

No entanto, nesse ponto, burburinhos sobre conversas mais próximas entre a Marvel e a Sony já rolavam – inclusive a confirmação que a torre Oscorp apareceria num dos filmes dos Vingadores – mas nada ainda havia sido confirmado. Dois anos depois, o Aranha de Tom Holland debutava no MCU no filme Capitão América: Guerra Civil (Anthony e Joe Russo, 2016) e um novo momento para o Aracnídeo mais legal do mundo parecia ter início.

Continua…

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