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Revendo Homem-Aranha: parte 1 de 3 – A TRILOGIA SAM RAIMI

Este ano (2021) foi anunciado o novo filme do Homem-Aranha – Homem-Aranha: Sem volta pra casa (Spider-man: No Way Home) – o terceiro longa com Tom Holland no papel de Peter/Spidey e também terceiro do Aranha dentro do Marvel Cinematic Universe, o conjunto de filmes interligados dos super-heróis Marvel. O filme chega com um atraso enorme que envolveu desde a pandemia do Covid-19 às milhares de idas e voltas contratuais e secretos-acordos-públicos da Disney (dona da Marvel) com a Sony (detentora dos direitos de adaptação dos personagens do universo do Homem-Aranha nos cinemas), ou seja, é um filme com mais camadas – burocráticas, narrativas, jurídicas etc. – que uma pintura profissional no Photoshop e, por isso, complicado de muitas formas.

Como fã do Aranha desde criança, costumo gostar de suas adaptações pela pura nostalgia. Ainda me vejo como um pivete quando encaro qualquer manifestação em tela grande do herói e deixo toda a seriedade (e meus anos de estudo sobre narrativas e histórias) de lado quando sei que vou ver meu lançador de teia favorito. Tudo o que há entre eu e um filme do Aranha é a mais dedicada meninice com seu encantamento bobo e infantil. Isso pra mim basta (apesar de já ter tecido comentários fervorosos para as adaptações que mais e menos gosto).

Este novo filme, no entanto, vem com uma prerrogativa especial: a junção numa mesma história das três versões cinematográficas do Homem-Aranha (que talvez perca só para Batman e Superman em releituras e adaptações), interpretadas por Tobey Maguire, Andrew Garfield e Tom Holland.

Com a Marvel berrando “multiverso” em suas produções – das séries televisivas aos filmes – e com a necessidade, tanto da Marvel quanto da Sony, de manter a galinha dos ovos de ouro ativa e chocando pintinhos dourados dos dois lados, o que era um frisson dos fãs acabou se tornando uma certeza ainda não anunciada, apesar de sua aparente óbvia realidade.

Como menino criado a rocambole scifiescos de mitologia kirbyana, melado em suco de surrealismo-ditko e marinado nas tramas paralelas (e absurdas) de Byrne fico bem empolgado mesmo de ver toda essa loucura gibiesca da Marvel nos cinemas, mas como consumidor (e fã de cinema), eu tenho enormes dúvidas do quanto esse esquema realmente funciona.

De qualquer forma, a junção desses três Homens-Aranhas – na tentativa de emular os bem sucedidos Spider-Geddon e Spider-verse – me levou a pensar o quanto minhas memórias de amor e ódio sobre as versões cinematográficas da personagem eram certas, adequadas ou mesmo racionais e decidi rever todos o filmes do Aranha até aqui – ou pelo menos aqueles que, de alguma forma, fariam sentido a este novo filme.

Assim, serão 3 dias de textos sobre essas reassistidas, pesquisas sobre contratos e boatos em sites pouco confiáveis, e muita especulação (aparentemente) sem fundamento algum a não ser minha diversão em escrever sobre meu herói favorito até o lançamento do novo filme. Espero ser justo com minhas memórias e fanatismos e ao mesmo tempo entregar uma diversão textual agradável (nem que seja de tão tosca).

A TRILOGIA SAM RAIMI

Sempre existiram planos para filmes do Homem-Aranha. A personagem, talvez a mais popular da Marvel, era ansiada por vários estúdios e badalados diretores desde a década de 1980 (quiçá antes). Nomes como James Cameron e mesmo Michael Jackson já quiseram fazer suas próprias versões de Peter, mas inúmeros entraves mantiveram a ideia pregada nas gavetas de arquivo por um longo período. Quando a Marvel teve um abalo econômico e viu como única saída liberar o direito de seus personagens para uso de outras empresas, parte de seu catálogo foi para Fox, enquanto Aranha e seu universo foram comprados pela Sony.

Depois do inesperado sucesso de X-Men (Brian Singer, 2000), que procurou trazer um olhar não só moderno, mas sombrio e levemente realista aos mutantes – seguindo os passos de Blade (Stephen Norrington, 1998) – de alguma forma, uma “cartilha” havia se estabelecido para a adaptação de Homem-Aranha e o aparente medo de um fiasco foi esquecido. A escolha de Sam Raimi, cineasta conhecido principalmente por Evil Dead (1981) e Darkman (1990), parecia reforçar este tom mais pesado, de paletas reduzidas. Raimi, por sua vez, tinha sua própria visão sobre o aracnídeo, falando em mais de uma entrevista seu amor e carinho pelo personagem e a dedicação que estava colocando no filme.

Assim, quando Homem-Aranha (2002) estreou, pode-se ver o quanto ele era diferente dos mutantes de Singer: um herói que tinha sua origem trágica, mas era divertido, intenso e muito jovem. De certa forma, Raimi ecoava mais o Superman (1978) de Richard Donner – um herói dramático, mas bastante solar – do que os parentes de editora. O filme foi um sucesso imediato, gerou mais duas sequências, catapultou (para o bem e para o mal) a carreira de Tobey Maguire, e deu a coroa de “mestre nerd” a Sam Raimi, muitas vezes lembrado como o desenvolvedor da versão “definitiva” do Aranha para os cinemas.

Revendo a primeira trilogia, consigo perceber o quanto o primeiro filme foi uma aposta arriscada e, talvez por isso, certa. Raimi não nega suas referências quadrinísticas e tanto Peter quanto o Aranha emanam toda a energia e auras das épocas de Stan Lee, Steve Ditko, John Romita, Ross Andru e Gerry Conway – visualmente, todo o universo que Raimi traz ao filme parece inspirado principalmente no trabalho de John Romita: dos saltos, às vestimentas e cenários. Raimi não inventa a roda e acerta por simplesmente emular as HQs: tanto que seu filme soa propositalmente cartunesco em vários momentos, mas com um tom adequado ao cinema, mantendo ativas a emoção e a empolgação juvenil – Raimi joga qualquer noção de realidade pela janela e faz um filme que transpira quadrinhos sem medo de ser feliz – as cenas de seu Aranha balançando entre os prédios são de encher os olhos.

Outro ponto alto é seu elenco: Willem Dafoe faz um Norman Osborn quase insuperável, não procurando repetir qualquer outra atuação, mas corajoso e experiente o suficiente pra entrar em todas as loucuras que o personagem exige: gritos, saltos, “vozinhas” estranhas, arroubos de fúria. De todos, parece ser o que mais se diverte. Rosemary Harris faz o que pra mim é a Tia May “que vale” – mesmo que suas “concorrentes” sejam a fantástica Sally Field e a sempre maravilhosa Marisa Tomei nos reboots que viriam – mantendo com shakespeariana medida o tom maternal e preocupado com Peter, mas também sendo uma personagem adorável por si só, dona de algumas das melhores falas dos três filmes.

O núcleo “jovem”, por sua vez, é bem dosado pelo diretor e, revendo, é possível perceber o quanto Tobey Maguire estava pouco à vontade no papel de Peter Parker, empreendendo algum esforço para alinhar sua prática às exigências de Raimi – mas não faz feio. Na falta de um Parker em carne e osso para melhor comparar (até aquele momento, a última manifestação “real” do personagem foi a esquecível série de TV de 1977) Maguire foi um alento aos fãs – apesar de não ter metade do carisma de Andrew Garfield ou a gentil meninice de Tom Holland.

Do lado “antagonistas-melhores amigos”, James Franco faz o papel de Harry Osborn. Nunca o considerei um bom ator e não acho que ele tenha conseguido expressar metade da atormentada personalidade de Harry nos quadrinhos, mas serviu ao que o filme necessitava e, se comparado ao Harry de DeHaan, se saiu melhor que o esperado.

Do trio principal, Kirsten Dunst é, de longe, a atriz que mais se destaca. Diferente de muitas personagens-femininas-namoradas-do-herói, acompanhamos a jornada de Mary Jane paralela a de Peter, tendo a percepção dos acontecimentos dela a partir do personagem principal e não por causa dele: vemos sua relação complicada com o pai (e ouvimos falar dos desdobramentos disso), acompanhamos ela negar o pedido de casamento de Flash, trabalhar como garçonete, namorar com Harry e tentar vaga de atriz no primeiro filme, depois iniciar uma carreira de modelo e namorar um astronauta no segundo, por fim, começar sua carreira na Broadway, falhar e ir cantar em bares no terceiro. MJ é uma personagem de vida própria e é possível torcer e se empolgar com ela independente do que aconteça com Peter/Aranha – modelo que deveria ser repetido sempre – e Dunst leva a personagem com extrema desenvoltura e simpatia.

O triângulo amoroso, por sinal, é um dos grandes diferenciais da trilogia Raimi e, ouso dizer, é o fio condutor principal de toda a trama: inicia complicado, tem seu momento alto (e de melhor atuação e envolvimento dos atores) na sequência e ganha todo o destaque no terceiro filme – a ponto deste ser um filme completamente voltado a esses três personagens, com o Aranha sendo um coadjuvante “incômodo” em vários momentos.

O elenco de apoio também tem seu lugar, com o devido destaque, obviamente, a JK Simmons como JJ Jameson – sua atuação foi tão marcante que ele fez o devido “comeback” em Homem-Aranha: Longe de Casa.

Por estas e outras qualidades, Homem-Aranha de 2002 é um verdadeiro triunfo – inclusive ficando quase um ano em cartaz em vários países – e, quando revisto dentro da “trilogia”, suas qualidades saltam porque (como era bem mais comum àquela época) era uma aposta ousada e incerta, podendo ou não ganhar uma sequência se seus números fossem positivos: o que aconteceu dois anos depois em Homem-Aranha 2 – cito esse ponto, porque do mesmo mal não sofre, por exemplo, a série “Casa” do Aranha sob a tutela da Sony-Marvel, com seus filmes, inclusive, soando completamente episódicos, e isso muda consideravelmente o tom de tudo.

Depois do bem sucedido filme de 2002, Raimi decidiu chutar o balde em HA 2 – o que é bem interessante quando a produção é vista “fora” do filme em si: Raimi teve mais liberdade, mais voz e um orçamento maior, no entanto, seu filme ainda era uma aposta, se fosse bem, teria nova sequência, se fosse mal, era o fim da franquia (de novo… gente, que tenso). Isso fez com que o diretor colocasse tudo o que queria no filme: um filme de gibi tanto quanto o primeiro, vilão clássico, reforço nos problemas pessoais de Peter, batalhas aéreas ainda melhores que o anterior, aprofundamento dos personagens e sequências de terror que soavam como uma homenagem de Raimi a si mesmo. A cena em que o Doutor Otto Octavius – interpretado com enorme magnificência por Alfred Molina – vai ter seus tentáculos arrancados e estes se voltam contra os cirurgiões é uma das melhores e mais emblemáticas de todos os filmes do Aranha e é puro caldo grosso do Sam Raimi que se consagrou com Evil Dead.

HA 2, apesar de não ter tido a bilheteria do primeiro, é apontado por alguns fãs e críticos como o melhor filme do Aranha já produzido: tem ação, comédia e drama no ponto certo e, apesar de fechado em si mesmo, conclui com grandes ganchos para um terceiro filme… que tomou três anos para ser lançado e essa espera, talvez, não tenha feito tão bem a ele.

Sempre gosto de lembrar que esses filmes não são produtos como os gibis: enquanto numa HQ tem-se ali uma equipe de cerca de 3 a 6 pessoas envolvidas diretamente no processo criativo e que, por vezes, desconsideram vendas, público e vários outros pormenores que não dizem respeito diretamente ao fazer (fora o fato que este pode ser incrivelmente barato; nas palavras de Daniel Brandão: “tudo o que preciso para fazer um quadrinho é papel e lápis”), um filme – ainda mais um blockbuster de super-heróis – é uma peça com tantas pessoas envolvidas, tantas opiniões, tabelas, necessidades, investimentos e pensamentos entrecortados que o simples fato de alguém querer fazer um filme já é por demais heroico.

Assim, quando HA 2 foi um sucesso “ok”, pois, em termos de números, ainda estava abaixo do primeiro – e, desconfio eu, pressionado pelo sucesso de Batman Begins (Christopher Nolan, 2005) -, a produção decidiu ouvir os fãs e saber o que eles gostariam de ter na sequência. A resposta foi “Venom”. O sombrio vilão-anti-herói-parceiro das histórias do Aranha representava muito dos excessos dos anos de 1990, mas era um deleite visual para boa parte de um grupo de leitores que viveu a era dos “chamarizes” do mercado americano e poderia ser o tom “noturno” que o Aranha precisava para contrapor-se ao Batman de Nolan.

Raimi, mais de uma vez (especulação ou não) demonstrou certo “desinteresse” em trabalhar com o vilão, preferindo um dos antagonistas clássicos: Abutre, Rino, Homem-Areia – mas a Sony insistia na entrada de Venom, tanto pelo seu apelo com o público quanto pelas possibilidades que ele poderia trazer ao estúdio, como uma ampliação “multiversal” da franquia (numa época em que o assunto era só burburinho). Com um ano de leva e trás entre estúdio, elenco e diretor – a Sony acabou ganhando a queda de braço, mas Raimi não ficou de mãos vazias no acordo: ele ainda teria controle (quase) total da obra… ou pelo menos é o que se supunha.

Reassistindo Homem-Aranha 3 (2007), a primeira metade do filme é maravilhosa. Raimi coloca os poderes e super-heroísmo como uma embalagem chique e trabalha de forma decidida com o trio MJ, Peter, Harry – a primeira, por exemplo, ganhando bem mais destaque na trama e sendo, várias vezes, personagem com quem mais me importei durante boa parte do filme. A história avança num tom mais sombrio que os anteriores e consegue prender bastante a atenção. As cenas de ação impressionam: a luta de Harry e Peter (sem a roupa de Aranha) é de longe a melhor do filme inteiro e segura bem a tensão. Até mesmo a trama envolvendo Flint Marko, o Homem-Areia – que é uma retcon do primeiro filme: um detalhe de gibi que me pegou de surpresa – por mais boba que seja, é passível de ser levada adiante. Thomas Haden Church, por sinal, que faz o papel de Marko, está atuando no automático, sem toda a diversão e caricaturismo dos vilões dos outros filmes, perdendo parte do brilho que fazia dos filmes do Aranha de Raimi serem legais. Mesmo assim, a cena em que ele se torna o Homem-Areia e começa a reconstruir o próprio corpo enquanto tenta pegar o pingente com a foto da filha é um verdadeiro chef kiss cinematográfico: desesperadora, emocionante, extremamente bem executada com os efeitos na medida certa – pra mim, a melhor cena de todos os filmes do Aranha sem dúvida alguma.

No entanto, quando o uniforme alienígena começa a ter destaque… tudo parece desandar e peca-se muito pelo excesso. Nisso várias tramas subdividem (mal) o todo: é Peter tentando pegar o assassino do tio, lidando com o amigo desmemoriado (culpa dele), concorrendo a uma vaga no jornal, tendo de lidar com o sucesso do Aranha, o pedido de casamento a MJ e a estranha substância que tomou seu uniforme, é Flint Marko fugindo da polícia e querendo dinheiro para tratar a doença da filha, é MJ tentando manter um emprego/a carreira, o namoro com Peter, a amizade com Harry e sua própria integridade emocional, é Eddie Brock querendo o emprego de Peter e namorar Gwen Stacy, é Harry esquecido/lembrou de tudo/com dúvida se mata o Peter ou se fica de boa, é o uniforme sendo rejeitado… é tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo e de tantos lugares que é quase complicado manter o foco no filme. Com isso, tudo perde: desde as cenas do Aranha se balançando pelos prédios (que parece um requentado dos filmes anteriores), às tramas com os vilões (Marko parte no final e tudo o que conseguiu foi o perdão de Peter, mas a filha dele… bem, ela que se dane, né? ele já tem o perdão do herói. Gente, quem aprovou essa ideia?), a própria relação de Peter com MJ chega a um fim, mas parece que nada foi concluído a não ser que ambos amaram… Harry (Betinho e Capitu feelings). O filme perde o foco muito rápido e, apesar de ter conseguido a melhor bilheteria dos três, foi a produção da trilogia Raimi que mais amargou críticas (algumas até justas) e que parece ter ferido de vez a boa energia do segundo filme. Para o elenco, entre carreiras que foram para outros lugares e problemas com alcoolismo e jogos, tudo era uma despedida, com Raimi jogando a toalha e saindo chateado.

Sem seu grupo de sucesso, a Sony começou a pensar o que fazer com o Aranha. Contam as histórias que novo acordo foi tentado com Raimi, Maguire e Dunst, mas os três fizeram exigências tão “absurdas” que a Sony preferiu deixar de lado. No entanto, o tempo passava. Aparentemente, os contratos de cessão de direitos dos personagens da Marvel para outros estúdios são bem limitados: ou seja, se dentro de um determinado tempo nenhum filme com aquele personagem for feito, os direitos voltam para a mão de seu detentor original: a própria Marvel.

Mesmo com a pressão dos filmes do Batman, a Sony não parecia preocupada em perder o contrato, no entanto, quando a Marvel, como produtora independente, lançou seu Homem de Ferro (Jon Favreau, 2008) com Robert Downey Jr no papel título e uma modesta produção de 148 milhões que papou 585 milhões em bilheteria, com a inesperada premissa de vários filmes de personagens interligados… esperar não era mais um bom plano. Em acordos feitos às pressas, Avi Arad e Laura Ziskin (produtores da trilogia de Raimi) correram para rebootar a franquia que um dia os tornou milionários e viram que deveriam ir para uma direção completamente diferente da anterior.

E Mark Webb parecia ser esse diferente.

Continua…

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