top of page

Sobre aquilo que se tem medo

Desde muito eu tenho medo de Alzheimer. De forma íntima, eu diria a mim mesmo que, na verdade, seria uma boa ideia essa de esquecer as coisas numa idade em que a memória já acumulou tanta coisa que faz o coração e a cabeça serem pesados. Você deixa de se importar com uma série de coisas porque simplesmente não lembra delas. Mas essa não é bem a verdade.

O “esquecer”, na verdade, é um “esvanecer”. Aquilo que você é, e nisso inclui-se as memórias de tudo o que você viveu, vai desaparecendo, as definições vão faltando. Sua identidade final, aquilo que tomou anos pra se formar, que te exigiu um esforço hercúleo de erros e acertos e aprendizados para, enfim, ser o alguém, o ser que você olha no espelho e finalmente se entende sendo… isso começa a se desconstruir com o Alzheimer.

A mente, por sua vez, não aceita isso de maneira calma. Ela entende que algo está acontecendo, que seu piso está desfazendo-se num abísmico buraco-negro e, como Joel Barish, essa identidade vai saltando de lembrança em lembrança, regredindo até os pontos mais seguros – não raro, marcantes lembranças de infância – num desespero não linear, confundindo os tempos, os acontecimentos, as pessoas e as coisas. É uma luta silenciosa e injusta, onde o olhar se perde na confusão que a mente tenta organizar ou resguardar ou se salvar.

Eu temo isso. Muito. Nem tanto pelas perdas, mas pelo desgaste, pela desconsideração de tudo o que foi vivido e, potencialmente e inadvertidamente, abandonado, como se o tempo não tivesse respeito pela sua vida e desejasse, acima de tudo, destruí-la e torturá-la antes de matá-la. Um predador brincando com a desesperada caça antes do abate.

1 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Jaula

Comentários


bottom of page