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Sim, devemos ter filhos.

Quando chegamos numa certa idade a decisão de ter filhos se torna um pensamento comum. Alguns saltam na direção positiva, abraçando a ideia com uma ávida naturalidade, aceitando o caso com alegria e como o fluxo correto (e óbvio) da vida. Um passo necessário na fascinante jornada de ainda existir nesse planeta. Outros pensam e repensam, tendo a certeza de que isso vai acontecer, mas esperando o momento exato, o alinhamento das estrelas, as parcerias que justificarão o peso da responsabilidade. Alguns mais negam fazer parte desse teatro do destino, vendo a pré-concebida “naturalidade” como mais uma ferramenta de dominação social. Por fim (mas não realmente o último desses infindáveis perfis), alguns se veem tendo de assumir a guarda contra suas agendas, planos, padrões – e o fazem, seja como for. No entanto, tenho pensado bastante em outro tipo de “ainda-não-mães/pais”: aqueles que têm certeza que querem, mas têm medo. A sociedade maluca, o preconceito exacerbado, a violência incansável, as novas velhas doenças, as políticas confusas, as incertezas do amanhã – parece que o mundo inteiro é uma grande ameaça para as crianças. Ora, se é para nós, pobres jovens-adultos, por que não seria aos ainda não nascidos? Definitivamente, não trazer mais um vivente a esse mundo completamente cheio de perigos parece o mais acertado. Bem, apesar de ser um defensor da vida “não-maternidade/paternidade” (afinal, todos têm o direito de não assumir certas responsabilidades e de dizer não ao premeditado como “natural”), acredito que ter crianças (ou adotar aquelas que foram abandonadas) ainda é uma decisão benéfica. Principalmente nessa geração.

Indo por partes.

Os bebês de hoje são (ou serão), em sua grande maioria, filhos da geração 1980-1990. No Brasil, uma geração que não viveu a ditadura, mas viveu um impeachment (não esse, mas esse, ok?), viveu o nascimento da internet e o crescimento das redes sociais, que descobriu toda uma nova conjuntura comunicativa e compartilhou, denunciou, descobriu, falou… enfim, se expressou de maneira livre (às vezes até demais) e tem caminhado por um caminho de revoluções sociais, representatividade, igualdade. Além, lógico, das quebras de fronteiras. Conhece-se e fala-se com pessoas em outros países com uma velocidade e imediatismo inesperados. Tudo isso, acredito, contribui para abandonarmos os rótulos, derrubarmos os preconceitos, reconhecermo-nos em outros. Parece pouco isso, positivo demais, mas é verdade. A mudança desses paradigmas já começou e só vai continuar se existir a coragem de colocar as crianças nessa equação, fazendo com que repliquem esse novo pensar no presente e futuro deles, multiplicando ideias que ainda são pequenas, mas que hão de se tornar maiores se elas as abraçarem.

Indo nessa onda, é importante lembrar que gerações anteriores passaram por coisas do tipo, pelas necessidades de mudanças de paradigmas, e sobreviveram e seguiram e mudaram. Há 20 anos atrás era quase impossível falar em casamento de pessoas do mesmo sexo, hoje, não só é possível como não é raro – sim, ainda sofre preconceito, mas o medo de se trazer isso e se viver isso diminuiu, a coragem se tornou maior – e tudo porque as gerações anteriores que viveram essa luta estiveram dispostas a terem filhos e colocar seus rebentos dentro desse discursivo mundo mutável, fazendo mais que protegê-los, mas mostrá-los a coexistência – palavra, que um dia, imagino, nunca mais será utilizada na significação que coloquei nesse texto.

Outro aspecto importante nesse processo de ter filhos hoje é quebrar os paradigmas e prisões que a geração dos nossos pais nos impôs. É abandonar a ideia de legado forçado, como uma responsabilidade obrigada e casada à perspectiva dos que nos criaram, forte criador da culpa filial e do mal estar no relacionamento com os tutores, e ampliar o conceito de estrada aberta, a qual nossos filhos terão de construir sozinhos. Assim, ter filhos pode ser uma terapia de liberdade pessoal, fazendo com que todo aquele ciclo de que nós devemos ser os espelhos, cuidadores, realização das frustrações de nossos pais seja quebrado e possamos ser mães e pais melhores porque simplesmente queremos ter filhos, não segundas chances de nossos sonhos.

Em resumo, ter filhos não deve ser uma obrigação, uma saída, uma conclusão, mas deve ser uma partilha pessoal, da mãe/pai com o mundo, com a vida, com a própria criança. Particularmente, gosto dessa palavra, partilhar, quando ela se refere a ter filhos, porque ela parece derrubar as hierarquias, abrandar as responsabilidade, e firmar um compromisso com uma outra pessoa, que pode até ter traços seus, mas que não é você, é ela mesma, mas que espera, ansiosamente, poder percorrer a própria vida e se orgulhar por ter tido você nela como mãe/pai, amigo e exemplo.

Foto devidamente roubada do Facebook de Amanda Palmer.

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