Encontrando a Equipe - Parte 01



Tem uma questão sobre estar à frente de um trabalho que acredito que seja a mais sensível de todas: montar a equipe, o que envolve, pra falar a verdade, “desmontar” muitas equipes.


É um pouco complicado se falar abertamente sobre os problemas envolvendo isso - ainda mais para aqueles que vêm de uma cultura de “não magoar”, que evitam o “não” dando respostas vagas ou mesmo mentiras, como, particular e sinceramente, era o meu caso - ou seja, tive de buscar por amadurecimento pessoal que ia além do projeto em si: aprender a dizer “sim”, “não”, falar a verdade e lidar, sem culpa, com quem pudesse vir a se sentir frustrado e chateado porque queria estar nessa não foi (é) fácil, mas eu sempre me forçava a fazê-lo e acho que aprendi bastante com a experiência.


Enfim, voltando no tempo, como falei na semana passada, a ideia em si do quadrinho existia, acredito, desde 2011 (apesar de “ecos” sobre o tema serem vistos em minha produção mais pessoal desde 2005) - por sua vez, a primeira versão do roteiro estava pronta em meados de 2012-2013 (minha memória com datas é uma droga, então há grande chance de isso ter uma imprecisão absurda… mas com certeza é depois de 2010). Na época, eu trabalhava com uma boa quantidade de parceiros num pequeno selo independente chamado Cultura de Quadrinhos, e já tinha dado meus passos no mercado de HQs com a publicação do Capitão Rapadura 40 Anos e boa parte das pessoas à minha volta estavam abertas (até por curiosidade, desconfio) em trabalhar com o Lâmina Azulada. Me incomodava, no entanto, não poder dar um retorno “mais válido” a essas pessoas (seja por meio de grana ou edições), então eu tinha conversas, mas não alavancava muito as coisas, preferindo trabalhar em projetos desses artistas do que entregá-los o meu (o que foi também um grande aprendizado, mas história pra outro momento).


Na época, falava-se muito sobre economia criativa e a partir de movimentações do Sebrae, com Zé Wellington e Glauber Uchôa à frente, tivemos em Fortaleza nossa primeira rodada de negócios com foco em histórias em quadrinhos. Esse evento foi de extrema importância pra todos nós, autores, e pro mercado de HQs cearense no geral. Vários editores de São Paulo, como Draco, JBC e Balão Editorial, vieram pra cá conhecer nossa produção e abrir oportunidades. A maior parte de nós saiu com algo: publicação em coletâneas, convites para trabalhos, contatos.


Kaléo Mendes, Maxwell Duarte e eu tínhamos alguns projetos em conjunto e, ao saber da rodada, criamos uma “mini-cooperativa” pra termos mais chances, procurando nos ajudar mutuamente. Assim, eu fazia o texto das apresentações e fui roteirista dos projetos deles (sob suas orientações, claro), enquanto, de minha parte e, apostando um pouco mais em mim, decidi incluir o Lâmina Azulada no menu.


Quando se trabalha com arte, existe uma situação bem comum: nem sempre o que se idealiza é aquilo que está no produto final, e a busca pra aproximar esses dois extremos pode ser a jornada de uma vida inteira. Com um roteirista, isso não é diferente. Procuramos sempre caminhar na intenção de diminuir o gap do que temos na cabeça daquilo que será feito e, logicamente, a escolha do desenhista - minha primeira acerca do projeto - envolve isso.


Eu tinha em mente Cristiano Lopes. Somos muito amigos e tivemos uma ótima experiência trabalhando juntos com o Capitão Rapadura 40 Anos. A questão é que Cristiano, apesar de seu enorme interesse em participar (tanto que se ofereceu como arte-finalista), estava muito ocupado e eu precisava de desenhos pra mostrar que o projeto era válido (pras editoras ou pra quem mais pudesse bancá-lo).


Com o advento da Rodada de Negócios e pela proximidade dos trabalhos em comum, Maxwell, então, entrou na jogada e fez desde layouts de páginas a estudo dos personagens. Max se envolveu tanto com o projeto que durante muito tempo sua arte foi a “cara” de Lâmina Azulada. Ele trazia muitas ideias e deu escopo e direcionamento a vários pontos da narrativa. Mas, e é algo difícil pra mim confessar, havia algo “fora de lugar”, só não sabia dizer o que era.


Max é um artista vindo da animação. Suas figuras são intensas e cheias de energia. Sua página é carregada de velocidade e ferocidade e toda a dramacidade do cartum pode ser sentida já nos rascunhos. Cada lápis de página que ele me apresentava era intenso e magnífico e, como eu não era tão experiente e estava realmente feliz por ter alguém como ele dentro do projeto, não conseguia perceber o que parecia “fora” pra mim.


Da esquerda para a direita: estudos de Curió, Euclides (jovem), Euclides (velho) e Severino feitos por Maxwell Duarte (2013)

A Rodada de Negócios veio e, apesar de nossos projetos não terem ganhado editoras (mas nós mesmos entramos em trabalhos delas), recebemos elogios o bastante para manter a “cooperativa”. Então, o trio continuou as produções conjuntas, apontando para outras rodadas, editais e o que mais aparecesse.


Em 2014 aconteceu uma segunda rodada de negócios para quadrinhos, dessa vez na Feira do Empreendedor, e eu apresentei o Lâmina novamente, dessa vez mais “encorpado”, assim por dizer. Um editor viu as páginas de Maxwell para Lâmina Azulada - duas arte-finalizadas por ele mesmo, diga-se de passagem - e fez um comentário que foi como girar uma “chave” no meu senso de percepção:


“Esse desenhista é muito bom, mas você criou um dilema pra mim: a arte dele serve aos comics, mas o tema da HQ não. Enquanto o tema se encaixa bem no mercado europeu, mas a arte nem tanto”.

Em suma, eu tentava conduzir um baião, enquanto Max estava orquestrando um rock. Instintivamente eu sabia disso, mas me faltava uma compreensão “de mercado”, “empírica”, pra perceber. No entanto, apesar de eu ter entendido a afirmação, fui bem resistente em concordar com ela e, como Maxwell estava bastante empolgado, decidi desconsiderá-la. Afinal, eu estava com um desenhista empenhado e profícuo em produção mesmo sem oferecer um pagamento ao mesmo.


Mas, bem, a vida encontra um meio.


O projeto se alongava e eu não conseguia encontrar uma forma econômica de viabilizá-lo e, com as flutuações do mercado brasileiro entre o começo de 2015 e final de 2017, seria cruel eu segurar Maxwell sem uma perspectiva mais segura. Com certa dificuldade, conversei com Max sobre dar uma parada e, com isso, interromper a parceria. Ele foi bastante profissional e concordou. Afinal, tanto ele precisava de um trabalho pago quanto pretendia tirar os próprios projetos da gaveta e tocá-los. Nada mais justo.


No fim, apesar de minha resistência, talvez a própria “Lâmina”, como item mítico que é, também quisesse encontrar seu próprio rumo, tomar sua própria face e, de alguma forma, as coisas foram acontecendo para isso - eu tendo algum controle sobre elas ou não. Porque um pouco antes do comentário que me fez repensar a “cara” do projeto, eu tive um contato com o trabalho do Rafael Dantas e, logo depois de Max e eu seguirmos caminhos separados, Rafa apareceu com o Qomics.


Sem eu perceber, tinha começado uma das mais importantes parcerias de minha carreira e uma das amizades mais sinceras que tenho. Mas… isso fica pro próximo texto.


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