Responsabilidade & Empatia


Há sempre uma série de incertezas na produção de uma nova obra. Muitas das quais têm a ver com algumas necessidades pessoais que fui descobrindo ao longo do tempo - como pessoa e como autor, por mais entranhadas que sejam essas duas personalidades. A maior dessas parte bem do âmago mesmo: o desejo de se falar sobre algo.


Quando escrevi A Entrega, pra coletânea Space Opera, eu tinha a certeza em mim de que eu gostaria de contar histórias sobre "maternidades", sobre a mãe da mãe e a filha da filha, uma realidade que encaro quase diariamente já que moro com minha mãe, a qual mora ao lado da própria mãe, cuja influência é mais presente do que gostaria, por mais calor e atenção maternal exista entre as frases de julgamento e carestia desse relacionamento.


Em resumo, eu queria contar histórias minhas, pessoais e intransferíveis. Histórias que eu mesmo vivi/vivo e que fizeram/fazem parte da pessoa que sou hoje, dos pensamentos que mudei e das maturidades que construí.


Mas n'A Entrega, as personagens principais são três mulheres negras e... bem, não preciso fazer uma grande palestra de como isso pode ser complicado, por mais que a história possa ter um caráter universal, homens têm a tendência a não escrever de forma justa personagens femininas por conta da cegueira vinda com o privilégio.


Daí surge aquele receio que pode paralisar a produção de uma obra por meses (ou anos): tomar o "lugar de fala", a vivência de alguém, para contar a minha história, assumindo uma postura opressora por "roubar" uma realidade que não é minha. Bem como, o receio reside também em construir uma "identidade falsa", que se utiliza de meus privilégios para suprimir uma realidade que não me pertence, mas que começa a ser vista tomando a minha ótica como base, ao invés do ponto de vista das pessoas e situações reais que utilizo como personagens de minha história, que, exemplificando, quer dizer: Eu, escritor homem-hétero-cis, faço mais sucesso com minha história de maternidade que tem mulheres negras como personagens principais do que uma mulher negra faria com o mesmo tema (o que - acredito - não aconteceu - ainda - talvez porque eu nem seja tão relevante como escritor, mas o exemplo não é tão distante assim de algo que acontece de fato).


Inclusive, eu nem entro na questão da qualidade do texto. Muitas autoras incríveis fazem bem menos sucesso por serem simplesmente mulheres e negras. Não fosse a própria resistência negra em divulgar tais figuras, talvez nem tivéssemos conhecimento de muitas delas.


Esse roubo me faz pensar muitas vezes antes de produzir qualquer coisa: qual a melhor solução pra isso? Escrever somente personagens que parecem comigo, que possuem minha identidade?


Não acho que a saída seja essa, pois limita as histórias e reforça estereótipos que devem ser repensados. Além disso, retira da arte a "liberdade" que lhe parece intrínseca. Sendo bem sincero, não acho que exista uma solução (ainda) pra isso, mas algum "movimento" deve ser feito para que tal questão possa encontrar direcionamentos mais justos. Por isso, eu falo (e insisto) no binômio RESPONSABILIDADE & EMPATIA.


Essa questão da responsabilidade envolve, primeiro, um reconhecimento muito simples de quem escreve: o que é possível fazer para que sua obra seja mais inclusa, mais aberta, mais diversa?


Na ficção, pode-se tudo. Inclusive subverter os modelos de nosso mundo e mesmo trazê-los com nova roupagem. Suas protagonistas podem ser mulheres negras, seus vilões, lourinhos brancos, deus pode ser uma mulher, as grandes escolas de magia podem ser tupinambás, os desertos de matizes e animais fantásticos podem ser sertões infindos de solo pedregoso e rachado ao invés das areias finas, seu grupo de amigos que combate ameaças sobrenaturais pode ser de etnias e origens diversas. Na fantasia não se precisa repetir os modelos de nosso mundo palpável ou reprisar infinitamente os estereótipos de mídias de alcance popular, mas de coração não tão popular assim, dentro das expectativas que criamos para eles.


Acho que é responsabilidade de autoras e autores proporem esses novos modelos, mundos e configurações independente de suas origens, mas tendo noção do impacto que esses modelos podem ter. Afinal, criar uma personagem principal feminina lésbica que trata as mulheres da mesma forma que James Bond é um enorme desserviço, tornando-se, na verdade, uma nova forma de opressão: utilizar símbolos de luta como mantenedores de modelos privilegiados (algo que o sistema capitalista faz com uma precisão enorme). Daí, é nesse momento em que a empatia faz-se necessária.


Roubando uma fala de Ian Fraser:

a empatia NÃO é se colocar no lugar do outro. [...] A empatia é a habilidade de ver o outro, de reconhecer o outro (suas semelhanças e diferenças), de ver que o outro está em dor, fazer de tudo para entender os motivos que o levaram à dor, se permitir ser sensibilizado e ajudá-lo na medida do possível.

Que, em suma, quer dizer: pesquise, entreviste, conheça, conviva e, principalmente, escute. Muitos autores se colocam numa posição não muito diferente do personagem que abre o filme O Grande Hotel Budapeste: "o autor é um observador". Tal afirmação é importante porque diminui a visão "criacionista" de escritor, mas limitada, porque observar muitas vezes é impor seu próprio filtro a uma situação, considerando seu ponto de vista como uno ali. Acredito que uma melhor adaptação é "o autor é um investigador": ele procura os porquês, as razões, as personas, ele caça as pedras que levaram às situações e indica as personagens dentro de motivações que fazem sentidos a elas, não a ele ou ao seu ego.


Ego é inimigo da empatia e a falta de empatia leva à irresponsabilidade da escrita e uma escrita irresponsável é uma escrita opressora. Ainda citando Ian Fraser: gerar uma escrita opressora é criar muros, não fronteiras.


Como não sou um autor tão relevante, acredito que minhas obras estão abaixo do radar dos grandes críticos e também abaixo de avaliações que podem contestar meu "lugar de fala". Mas não estou longe da responsabilidade e da empatia como tal, assim como também preciso entender que o processo de aprendizado é contínuo e que envolve cometer erros, encarar as consequências desses e, por sua vez, evitar repeti-los.


Nessa conversa toda sobre ego x responsabilidade & empatia, muitos autores não reconhecem que têm função na sociedade, que são úteis a ela ao fazer com que as pessoas olhem para lugares em si e para os mundos a sua volta e percebam algo que muitas vezes negam ou simplesmente não viram: um sentimento, uma relação, uma conexão.


Como Amanda Palmer descreve e seu livro A Arte de Pedir

Quando os artistas trabalham bem, conectam as pessoas a eles mesmos e as costuram umas às outras com essa experiência compartilhada de descobrir uma conexão que não era visível antes.

Isso define bastante não somente o tipo de texto que queremos fazer, mas nosso caráter enquanto autores, e serve de norte não somente a textos melhores, mas a trabalhos que possam ser universalmente agregadores.

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