Resenha: São Francisco de Gabriela Güllich e João Velozo


Quando Joe Sacco “aterrissou” com Palestina em 1993, o mercado de HQs ficou impressionado sobre mais essa vertente da utilização da linguagem: o jornalismo em quadrinhos - apesar de uma pesquisa mais acurada remontar a ideias semelhantes bem antes disso e mesmo em um passado não tão distante com Maus, de Art Spiegelman, obra considerada biográfica, mas também jornalística - desde então, o uso dos quadrinhos com um objetivo jornalístico tem se ampliado e vai desde obras de conclusão de curso em universidades até matérias de extensa pesquisa para portais jornalísticos - principalmente os independentes - combinando as duas linguagens para criar um tipo de texto que descomplique informações, visões e vertentes que concorrem aos fatos, procurando aproximar-se da idealizada imparcialidade jornalística.

No Brasil, há uma quantidade bem limitada de obras impressas nesta vertente - sendo Pânico no José Walter, do cearense Talles Rodrigues, uma importante referência - mas que tem crescido consideravelmente nos últimos anos, principalmente porque os quadrinhos são uma mídia poderosa àqueles que acreditam que o status quo deve ser revisto, repensado e discutido.

É nesse movimento que Gabriela Güllich e João Velozo apresentam a novela gráfica jornalística São Francisco, uma HQ em formato grande com uma vasta pesquisa que une a linguagem dos quadrinhos e fotos em preto e branco.

A obra, que foi publicada através de financiamento coletivo, garantiu às autorias o HQ Mix de 2020 como Obra Independente de Autor e procura analisar o impacto da transposição do Rio São Francisco, no Eixo Leste, indo da cidade de Belém de São Francisco (PE) a Monteiro (PB), percorrendo mais de 2.500Km para compor seu conteúdo.

A ideia de conceber tal obra já seria por demais corajosa, vê-la terminada é um feito, mas o cuidado com que Gabriela e João produziram a HQ justifica todos os elogios que a mídia especializada já teceu a ambos. Organizado em três “capítulos”, “Água”, “Seca” e “Obra”, São Francisco é um registro das pessoas que se viram à mercê do grande projeto de transposição, das casas abandonadas às demandas governamentais e uso das águas - as entrevistas retratam vidas que tentam entender seus lugares dentro do quadro maior que é a gerência das águas do Velho Chico.

Para tal, Gabriela Güllich, desenhista do projeto, une seu marcado traço de influência realista às fotos cinematográficas de João Velozo e o resultado é uma narrativa que caminha por pessoas, ambientes e tempos, numa simbiose peculiar entre fotos e desenhos, retratando vidas com precisão jornalística e uma beleza humana daqueles que desejam muito falar quando lhes é concedido o direito de serem ouvidos.

Dentro das estruturas da linguagem, o livro possui um primeiro capítulo bastante preocupado com a contextualização de seu tema, por isso adota um tom mais lento e informativo que os posteriores - com as conexões entre as entrevistas sendo costuradas pelo resgate de notícias de jornal e pelas fotos dos “cenários” reais. É a partir do segundo capítulo, por sua vez, que o livro-reportagem ganha força, com as entrevistas em tons mais intimistas e pessoais, enquanto a “estrada” da leitura se alarga, chegando até seu destino.

São Francisco é uma HQ de muitas interpretações: há espaço à denúncia, à revolta, à emoção e ao medo dos resultados que os usos indevidos das águas do principal rio do Nordeste podem trazer. Uma miríade de sentimentos reveladores e incômodos, que nos levam a repensar nosso país e o quanto estamos realmente fazendo algo por ele. Como todo bom jornalismo.

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