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Random Netflix Especial: Gravity Falls

Texto originalmente feito para o site da artista Nathalia Garcia em janeiro, 2017.

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Arte de Nathália Garcia


Dois irmãos gêmeos, Mabel e Dipper, são mandados pelos pais para passarem as férias de verão com o tio-avô, Stan Pines, na pequena Gravity Falls. Lá eles descobrem que, apesar das histórias e souvenires falsos de criaturas sobrenaturais que o tio utiliza pra ludibriar e arrancar dinheiro de turistas, algo realmente fora do comum acontece na cidade, principalmente depois de Dipper encontrar um estranho diário com a marca de uma mão de 6 dedos na capa.

Com essa premissa, Alex Hirsch (criador que também dubla Stan, Soos e outros personagens) criou uma das mais divertidas e empolgantes séries animadas dos últimos 10 anos.

Desenvolvida pela Disney Television Company, Gravity Falls é uma série de mistério, aventura, comédia e muito drama, sendo um material fora da curva natural de sua desenvolvedora, mas que ainda assim parece ter bebido de fontes como A Nova Onda do Imperador, Ducktales, Tico e Teco e os Defensores da Lei, Darkwing Duck, os filmes de Dan Bluth e The Simpsons. Além de ser categoricamente um filhote dos anos de 1980-1990: Há ecos altos tanto nas estruturas narrativas quanto na estética de séries e filmes como She-Ha, Jem e as Hologramas, Os Goonies, Adventures of babysitting, My Little Poney, Scooby-Doo, De Volta para o Futuro, Punky: A Levada da Breca e O Garoto do Futuro, além de, guardando as devidas proporções, Twin Peaks e Arquivo X, bem como o sempre lembrado Além da Imaginação. Isso sem falar de outros elementos da cultura nerd-pop que se popularizaram por essas décadas, como jogos de arcades, RPG, boy bands, dando ao programa uma identidade meio frankensteiniana: um conjunto de retalhos usados que formam algo novo e único (e tudo com muita metalinguagem e criatividade).

O roteiro da série, por sinal, segue bem essa ideia dos retalhos: detalhes sobre a trama envolvendo o tal diário são espalhados pelos episódios com cuidado para sempre sugerir o que vai acontecer sem entregar o quadro geral. Assim, há um enorme espaço nos capítulos para mensagens encriptadas em vitrais, números e desenhos que parecem ser só elementos do cenário, mas que, na verdade, são partes de um todo e que convergem apoteoticamente para o final: o que faz querer retornarmos a série várias e várias vezes.

O grande diferencial do programa, no entanto, (e talvez o maior demarcador de que esse é um produto Disney) são seus personagens. Dos principais aos secundários, aos que aparecem por alguns pouquíssimos episódios, todos são tratados com o cuidado para que os espectadores se importem com tudo o que façam ou vivam, escolhendo rapidamente seus amados e odiados preferidos. Mabel é, de longe, o coração e grande estrela cômica. Apesar de Dipper ser aquele que nos leva aos recôndidos misteriosos da trama, revelando os segredos que se escondem no diário e encontrando saídas para as situações mais improváveis, Mabel é a personagem que traz o choro, o riso, a insanidade e a alegria. Sua “pureza de coração” (entendedores entenderão) deixa a série mais colorida e com certeza é a responsável pela leveza que facilita a absorção de vários episódios.

O grande tema da série, por sua vez, é o drama das relações familiares: a positiva e cúmplice proximidade entre Mabel e Dipper é um charme a parte, mas não está imune às discussões que envolvem o abandono da infância, as expectativas para o futuro e as discordâncias. Esses elementos se tornam mais fortes e assustadores quando o irmão de Stan, Ford, aparece em um momento e o passado deles é revelado (em um dos mais bem dirigidos episódios de série animada da história). É inegável as tramas “espelhadas” entre Stan e Ford e Mabel e Dipper, as quais dão reforço ao que as crianças são naquele momento e os medos sobre o que se tornarão.

É nos personagens também que a série “pisa em ovos”. Apesar de um elenco incrivelmente cativante, as escolhas de diversidade e utilização de estereótipos (principalmente os de etnia e gênero) ficam em uma “área cinza” em que o insulto e a inocência compartilham limites muito próximos. Assim, a série não consegue se tornar tão diversa ou esclarecedora quanto um Steven Universe, mas também não se lambuza nas caixas de privilégios como Ricky and Morty.

Essa expressão, por sinal, “área cinza”, parece se encaixar muito bem ao programa: não é um produto majoritariamente infantil ou adulto. Mas pode tanto afastar quanto aproximar ambos os públicos, apesar de ser difícil que a primeira opção aconteça.

Gravity Falls foi lançada em 2012, mas conseguiu chegar ao seu fim somente em 2016, tendo uma exibição completamente irregular e hiatos perigosos (justificados pela Disney como única forma de manter a qualidade do roteiro e animação), mas sempre se manteve como queridinha da crítica e conseguiu uma fiel base de fãs que, mesmo que não tenham novos episódios, esperam que a repercussão de sua produção contamine outras animações do estúdio, como o vindouro Ducktales.

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