Os Caminhos da Fantasia


Quando se escreve uma história, o cenário funciona como um delimitador de regras. Ele é mais que “o local” da história, mas representa os limites que dão vazão à existência daqueles seres, ou seja, todos os “pode/não pode” que permitem “a dança” dos personagens durante a narrativa: como lidam com as situações, como se relacionam com o mundo em que estão inseridos e entre si (ou as “leis” dessas interações).


Dessa forma, a produção de obras que se utilizam de elementos fantásticos parece um incrível convite ao impossível, com suas regras sendo arremessadas a extremos em que o “não poder” é um detalhe pouco relevante…


É comum querermos que nossos personagens sejam capazes de qualquer coisa, pois isso os permite resolver facilmente as dificuldades que surjam. No entanto, nas narrativas, quanto mais complicado é para um personagem atingir os objetivos da trama, mais dinâmica e interessante é a história, aumentando a chance dos leitores se envolverem no que está sendo contado. Por isso, ao escolher um cenário de fantasia, é importante que os “não poder” sejam tão (ou mais relevantes) que os “poder”.


Há livros e artigos o suficiente definindo e retratando a fantasia e como utilizá-la - talvez Ray Bradbury seja o autor que melhor escreveu sobre "escrever", mas eu indico fortemente o The Guide to Writing Fantasy and Science Fiction: 6 Steps... de Philip Athans e R. A. Salvatore, apesar de acreditar que o grande aprendizado ainda venha da leitura de obras que usam a fantasia e seus diferentes níveis: assim, minhas indicações incluem Machado de Assis, Marion Zimmer Bradley e Elaine Cunningham, só pra citar alguns - mas, como o egocêntrico que sou (e porque o intuito desses artigos é apresentar meu processo), eu vou procurar demonstrar minha definição aos “campos” da fantasia e como os utilizo.

Pra quem gosta de pequenas e interessante "fórmulas" e análise literária, esse livro é uma grande pedida.

Antes de tudo, é preciso que eu adiante: acredito que qualquer obra automaticamente possui algum viés fantástico (talvez o mais sensato seja chamar ficcional). A “realidade contada”, por mais apoiada que seja em fatos (principalmente em obras biográficas) é incompleta, imprecisa e enviesada pela percepção do autor, então é, por si só, fantástica. Além disso, nosso mundo físico é recheado de fantasias: como sonhos, fé, costumes, tabus, folclores - de alguma forma estamos cercados por todo tipo de manifestação que contradiz ou traz dúvida quanto ao que percebemos como realidade palpável - e as artes procuram, à sua forma, ver além desse “véu”, trazendo uma versão, uma interpretação, desses mundos invisíveis.


Compreendido isso, sigamos:


1. A Fantasia Mítica: chamo de míticas as histórias levadas pelos mitos, pelos símbolos, pelas ideias. Elas não têm a presença física do fantástico, mas este existe por meio da fé e das crenças, bem como, ele não precisa ser necessariamente a figura de uma divindade ou folclore, mas pode ser uma personalidade marcante e sua influência, um modelo de vida a seguir, a “atmosfera” de uma cidade, uma viagem, um item.

Muitas histórias policiais, com assassinos impossíveis de serem alcançados, voltam-se aos mitos para construir a jornada de seus investigadores e criarem um senso de perigo e horror a seus antagonistas. O Silêncio dos Inocentes, por exemplo, se enquadra bastante nessa definição: tanto Buffalo Bill quanto Hannibal Lecter são figuras míticas, cercadas de simbolismos agressivos, violentos e aterrorizantes, apesar de serem, em si, personagens reais, tão humanos quanto qualquer um pode ser - o mesmo acontece em Zodíaco e em alguns casos de Sherlock Holmes, em que os mitos dão um ar sobrenatural a elementos palpáveis.

Em Fun Home, de Alison Bechdel, tanto a mãe quanto o pai da protagonista possuem personalidades tão marcantes que influenciam o desenvolvimento dela: são pólos de uma bússola que Alison não sabe usar e os mitos - pessoais, únicos, específicos àquele contexto - que ambos representam revolvem a cabeça dela durante toda a história. Em Uma Mente Brilhante, o mítico se encontra nas personas “inventadas” de John Nash e no quanto aquilo altera sua própria realidade - apesar de nada em si ser palpável ao mundo real.

Quem chega ao extremo dessa definição, no entanto, é a série Vikings de Michael Hirst: a fé dos personagens é tão forte e tão entranhada em suas personalidades e rotinas que cada premonição ou jogada do destino nos leva a questionar se aquilo foi a consequência natural das ações dos personagens ou o “hálito” dos deuses sobre eles - e Vikings não procura responder a essa questão, tocando no “véu” da fantasia sem atravessá-lo.

Quando a fantasia mítica existe numa história dificilmente ela vai ser “explicada”, pois é uma manifestação natural do humano: todos temos um conjunto de mitos para os quais nos voltamos, sejam religiosos ou soberanos, e não é preciso muitos argumentos para explicar a um leitor ou espectador a influência desses símbolos na vida dos personagens.


2. A Fantasia Sobrenatural: aqui a fantasia existe, mas de forma controlada, podendo ser discreta, específica ou especial. Suas regras tendem a ser simples, raras, únicas e objetivas e o fantástico precisa de um ambiente, item ou ser único para enfim se manifestar, ou seja, é necessário uma ponte que traga aquilo que habita do outro lado do “véu” da fantasia para nosso mundo - costumeiramente o acesso a essa ponte é trancado e exige um evento/item/ser para abri-lo: não raro, há uma "senha", explicada logo no começo da narrativa, e que, obviamente, será de alguma forma “rompida” ou “acessada” pelos personagens.

Histórias de terror (que, inclusive, carregam a palavra “sobrenatural” em seus títulos) são os ambientes mais profícuos desse tipo de fantasia, de Freddy Krueger a Jason, do monstruoso Pennywise à boneca Annabelle, a fita de O Chamado ou a tentacular divindade de Lovecraft: cada um desses seres sobrenaturais entram na história para impactar o mundo dos protagonistas. Assim, não são os personagens que vão ao mundo da fantasia, mas esta que encontra uma forma de visitar o deles, por isso o contato com esse elemento pode ser revelador, aterrorizante ou enlouquecedor.

A fantasia sobrenatural está em vários outros gêneros de histórias, como a aventura - vide as séries da Múmia e Indiana Jones - e mesmo a ficção científica, tendo Akira, ao meu ver, um dos mais fortes exemplos, incluindo O Divino, de Boaz Lavine e dos irmãos Hanuka, e O Fantasma de Anya, de Vera Brosgol, na lista. O T-800 que procura Sarah Connor no primeiro Exterminador do Futuro nada mais é do que a fantasia impossível cruzando a linha do tempo para enfim destruí-la.


A esper de "The Divine".

3. A Fantasia Mística: aqui adentramos o reino da fantasia em si. Não é uma manifestação pequena, tímida, mas um mundo inteiro que existe por meio de novas, incomuns e (não raro) complexas regras. A fantasia mística é tão brutalmente distante de nós que pode, inclusive ter outro nome: Toril, Hogwarts, Terra-Média, Narnia. Se os personagens são de lá, possuem habilidades únicas, não humanas, naturalmente especiais para nós, por mais ordinárias que sejam para seus universos (vide o caso dos seres de Warcraft), se, por sua vez, os humanos são transportados para lá, ou acabam por adquirir capacidades extraordinárias, como em Uma Princesa de Marte ou História sem fim, ou sua frágil, porém “teimosa”, humanidade torna-os especiais e únicos, como em Neverwhere e Coraline.

O interessante, no entanto, é que os dramas de seus personagens místicos são fortemente humanos e, por isso, conseguimos nos envolver e importar com eles: como o sentimento de rejeição e engano sentido por Loki em Thor, ou o agradecimento humilde de Aragorn, rei dentre os reis, aos pequenos e corajosos hobbits, ou o peso emocional da inevitabilidade do destino que Camelot que Morgana bravamente procura reverter. Não há um só personagem do mundo fantástico que não se “vista” de humanidade, mesmo em seus exageros e contradições - assim, seus poderes “ilimitados” são pequenos quando confrontados com seus dramas.


Como escritor, a fantasia mística foi uma constante em meu trabalho até aqui: seja no quadrinho Alma de Dragão ou em Cavaleiro Avante e mesmo em Justiça Sideral: Erídhia. Na intenção, por sua vez, de visitar e mesmo lidar com novos gêneros, venho me propondo a sair do místico e visitar novas “fantasias” - e acredito que Lâmina Azulada seja o primeiro passo pra isso. Assim, desenvolvi para a história um cenário que tem bases em nossos folclores e crendices em que, por mais que o véu entre o palpável e o fantástico seja fino o suficiente para confudi-los, cada interação é gerada por um evento e segue uma regra simples de entender (assim espero). Nenhum presente fantástico vem sem uma maldição embutida e o contato dos humanos com os seres vindos de trás do “véu” é perigoso, cheio de ardis. Assim daria poderes limitados aos meus protagonistas, mas consideráveis potencialidades a seus antagonistas.


Para compreender o que quero dizer, segue um pequeno preview do capítulo 1.





Como prometido, o primeiro preview da graphic novel. Outras novidades surgirão e eu penso em fazer uma pequena campanha de pré-venda antes do lançamento.


Para quem está acompanhando, o que estão achando dos textos? Bons, enriquecedores, interessantes ou mais do mesmo? Comentem na publicação ou troquem uma ideia comigo pelo Instagram, será legal saber a opinião de vocês e mesmo pensar com os leitores como lançamentos, divulgação e envios do livro podem ser feitos.


Até a próxima.

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