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O Valor do Vazio


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Fanfic baseada nos personagens Brinquedo e Capitão Rapadura, criados pelo cartunista Mino.

Menino Brinquedo estava tendo um aniversário em tanto. Já tinha ganhado bola de futebol, saco de bilas, 3 piões coloridos, uma bonequinha do Mickey e ingressos para ver o circo. Depois de abrir todos os presentes dados, Brinquedo esperou ansioso pelo o do seu tio, o famoso super-herói Capitão Rapadura, que sorria pra ele com alguma maquinação no canto da boca, mas nada veio. O esperto Capitão puxou os parabéns antes que o sobrinho o abordasse, cobrando pela lembrança. Contrariado, Brinquedo esperou o apagar das velas, o bolo, os beijos e beliscões das tias e os joguinhos que sua mãe preparara para divertir os convidados. Ao fim das patotas, com todos já tendo ido embora, Brinquedo foi até o tio. Seu beiço erguido, a testa franzida. Ele falava mantendo uma das mãos na cintura e a outra puxando Rapadura pela camisa:

– Poxa, tio Rapa, e meu presente? Eu sei que o senhor tem coisa pra mim!

Capitão Rapadura sorriu com uma de suas sobrancelhas levantadas.

– Tenho sim. – falou coçando o queixo – mas não sei se você está preparado para esse presente…

– Oxe! Lógico que tô! É meu aniversário! Tô preparado pra tudo! – respondeu Brinquedo, fazendo um meneio com o braço e finalizando com uma pose imperiosa, colocando a mão no peito.

– Tudo bem. – disse Rapadura – mas você tem de me prometer uma coisa: só vai se livrar desse presente se for pra presentear outra pessoa, tudo bem?

– Tá bem! – respondeu Brinquedo com um largo sorriso, ao mesmo que tempo que se perguntava que doideira era aquela de dar presente dado.

Capitão, então, entregou-lhe um embrulho feito de saco de pão amarrado em cordão amarelo de palha. Brinquedo rasgou o papel com voracidade, descobrindo uma caixa de madeira não mais larga que suas duas mãos abertas nem mais alta que seu punho fechado, e bem simples: madeira lixada acabada em verniz marrom e pequenas dobradiças de metal na portinha superior.

Brinquedo olhou para o tio com brilhantes olhos, deu a si mesmo algum suspense antes de abrir a caixa, sentindo o peso do artefato que ele sonhava ter dentro, resultado, achava ele, das viagens interplanetárias ou aventuras do tio super-herói, dando tantas caras, funções e nomes àquele desconhecido que era impossível dizer o que realmente tinha só pelos seus pensamentos.

A realidade, no entanto, foi uma expressão confusa e um som fino vindo da garganta de Brinquedo. Com a portinha da caixa aberta, o que se mostrava dentro era coisa alguma: sem piões vindos de marte ou dentes sagrados de dragões.

Com as bochechas vermelhas e a boca torta, Brinquedo falou com o tio:

– Que brincadeira de mau gosto, tio! Nessa caixa não tem nada!

– Como não?! – surpreendeu-se Capitão Rapadura – ela tá cheinha! Olha só! – ergueu Rapadura a caixa, apontando para o grande “nada” que transbordava dela.

– Tá ficando louco, tio Rapa?! A caixa tá vazia!

– Isso mesmo! – sorriu perspicaz o bom Rapadura – Ela está cheia de “vazios”!

Brinquedo ergueu o lábio superior entoando um longo e incômodo “hum?”. Em sua cabeça, o tio tinha levado cascudo de super-vilão e estava abirobado das ideias. Onde já se viu uma caixa cheia de “vazios”? Decidiu se fazer de esperto e entrar naquela:

– Ah é, sabichão? E o que eu faço com esses “vazios” aí? – perguntou, dando de ombros.

– Isso, meu sobrinho, – respondeu Capitão Rapadura curvando-se até a altura dos olhos de seu sobrinho e apertando com o indicador seu nariz de bolinha, igual se faz a um botão – você vai ter de descobrir sozinho.

Capitão, então, alçou voo e partiu dali, deixando o menino furioso e confuso. Sentindo-se engabelado, Brinquedo bateu os passos até seu quarto. Jogou-se na cama entre bufas e reclamações, virando e desvirando a caixa de madeira esperando que esta tivesse algum segredo, magia ou ciência desconhecida que somente a vida de super-herói era capaz de esconder. Grande decepção teve ao ver que a caixa era tão ordinária quanto seu já destruído embrulho. Emburrado, arremessou o presente na pilha dos outros, imediatamente virando o frustrado rosto contra o travesseiro e desabando em sono, cansado pelo dia festivo e os mistérios não resolvidos.

Na manhã seguinte, antes de ir a escola, Brinquedo revirava os presentes à procura de suas bilas. A novidade chamaria a atenção no recreio e talvez o garantisse mais algumas bolinhas depois de uma partida ou duas. Que surpresa teve ao perceber que elas se encontravam dentro da caixa dada pelo tio e que estava virada para baixo, com uma pequena lasca, fruto de seu arremesso antes do sono. Ao ver que as pequenas bolinhas de vidro brilhantes cabiam tão bem na caixa, decidiu utilizá-la como estojo de bilas, feliz com o barulhinho que estas faziam sempre que ele balançava o presente rapadural.

Durante o recreio, Brinquedo foi um inesperado arraso (até pra ele mesmo). Fez jogadas que pareciam impossíveis: bila fazendo curva, bila pulando por cima de outras duas, bila fazendo “8”, bila indo e voltando. Foram tantos acertos que conseguiu voltar para casa com mais 20 bilinhas! Quando a mãe perguntou de onde tinham vindo tantas vitórias repentinas, a única explicação que o menino conseguiu encontrar era a caixa de madeira dada pelo tio. Acreditando que uma vez as bilas guardadas nela, uma “magia” especial havia se apossado dos brinquedos, conferindo-lhes capacidades que lhes faziam ser melhores que qualquer outro.

A mãe de Brinquedo riu da imaginação do garoto, mas não o desestimulou e perguntou o que iria fazer agora que tinha esse “artigo incrível” em mãos. Como se tivesse descoberto o segredo do sucesso, Brinquedo começou a guardar todo tipo de divertimento lá: seu pião, suas figurinhas do bafo, seus dados de jogos de tabuleiro, seus dominós… Mágica ou não, histórias de vitórias e derrotas, de amizades partidas e reconquistadas e aventuras em enormes cajueiros foram parar na caixa, além dos brinquedos, búzios de praias desconhecidas, sementes de frutas comidas no pé e pedrinhas coloridas de viagens distantes… todas essas peças ocuparam um lugar ali. A infância de Brinquedo foi vivendo a caixa de madeira através de seus objetos, preenchendo os espaços vazios com a energia da rotina da criança.

O tempo passou, Brinquedo agora era um jovem preocupado com os rebeldes fios de barba, os primeiros interesses amorosos, as decisões acerca de estudos e carreira, e as saídas com amigos longe do olhar vigilante da família. A caixa de madeira havia sido esquecida em algum ponto entre os 11 e 12 anos e quando Brinquedo precisou de um lugar especial para guardar a cartinha selada com um beijo de sua primeira paixão, a caixa reapareceu “como mágica”.

Brinquedo a encontrou vazia, apesar de marcada pelas malinações da criança que outrora fora, ainda assim, era a mesma: não mais larga que suas duas mãos abertas nem mais alta que seu punho fechado.

Ele sorria relembrando as peripécias com o presente a tiracolo, mas não tardou em preencher aqueles novos vazios, e, com o tempo, o ciclo se repetiu: iniciado com a pequena carta, logo foi dando lugar a papéis de bombons, ingressos de cinema, postais de viagens, bottons de encontros, selos de amigos que partiram, lembranças de outros que ficaram. A caixa, esquecida na infância, era o diário do adolescente que traçava seu destino com coragem e esperança por caminhos desconhecidos e escolhas duvidosas. A madeira retangular em verniz marrom guardou objetos cheios de sonhos, mas também outros carregados de desafetos.

Quando, naquele inevitável passo para a vida adulta, Brinquedo foi pedir em casamento a pessoa que o amava, ele colocou as alianças na caixa, não recordando de já tê-la vista tão cheia quanto com somente aqueles dois arcos metálicos brilhosos. Era mais um ciclo que se encerrava e outro que começava e, dessa vez, ele não esqueceria a caixa de vazios.

A vida adulta abalou as estruturas de Brinquedo de muitas formas: carreiras fracassadas, pessoas que partiam, moradias que mudavam. Ele resistia a essas peripécias com algum apoio da caixinha: por vezes, guardava objetos importantes, esperando dar-lhes melhores destinos (o que nem sempre acontecia), noutras contemplava os vazios procurando por alguma calmaria nas memórias que a caixa despertava. Nem sempre funcionava, mas o que “os vazios” ensinaram a ele é que tudo muda e uma nova etapa estava a sua espera imediatamente ao fim de outra. Assim, Brinquedo seguiu um rumo, com a “caixa de vazios” sendo uma metáfora real de todas as fases que passou.

Chegava, então, o findar dos dias, a inevitabilidade comum a todos. Capitão Rapadura, o tio e pai de criação de Brinquedo, já não voava com os rolinhas, mas se balançava devagar numa cadeirinha de alpendre numa casinha silenciosa como a natureza, quase às margens do Orós. A rapadura, alimento que lhe dava força e vigor sobre-humanos, somente adoçava sua língua, enquanto seu olhar, perdido nas linhas confusas do Alzheimer, sentava-se nas nuvens brancas do céu, sentindo, sem recordar, de uma época áurea, em que o nome Capitão Rapadura era um esperançoso mantra aos desafortunados.

Brinquedo, o sobrinho e filho de criação, fazia visitas semanais. Sentava-se ao lado do tio e sorria relembrando um passado às vezes claro para o Rapadura, às vezes desconhecido, assim como o rosto de seu narrador. Nessas visitas, Capitão nunca era ríspido ou agressivo com Brinquedo, mas também não era gentil, e essa grande dúvida de como o tio o via era o que mais lhe doía, porque ele mesmo não via o energético e intenso familiar que lhe deu morada e carinho desde sua criancisse.

Um dia, Brinquedo recebeu a ligação do médico, o qual, mesmo com algum tato humano, não conseguiu esconder as ciências sem soluções sobre o tio. “Os dias estão contados”, falou o doutor com gravidade, as palavras apertando o coração de Brinquedo. A conformação prévia do fim nunca conforta o coração que sentirá saudades.

Desolado, Brinquedo foi até sua “caixa de vazios”. Ela não guardava objeto algum, tendo chegado ao tempo que seu valor não estava no que ela era capaz de fazer, mas na jornada que ela havia cumprido. Assim, Brinquedo a mantinha por carinho e acreditava que era hora de passá-la a alguém, única exigência feita pelo tio ao dá-la. Enrolou a caixa em um papel de pão e em barbantes de palha, assim como outrora havia ganhado. Seguiu viagem para rever o tio, no coração, a esperança de ter um último sorriso do Capitão Rapadura, seu tio, amigo e exemplo.

Brinquedo sentou-se ao lado do Capitão no alpendre onde se encontrava sua cadeira de balanço e que agora parecia tão pequena quanto o resto de presença do velhinho nesse plano. O olhar de Rapadura vagava solitário pelos céus, como alguém que olhasse, mas não visse coisa alguma: uma mosca que caiu na aguardente, voando sem saber de onde veio ou para onde vai.

– Trouxe um presente, tio. – falou ele, procurando alguma reação do presenteado.

Capitão Rapadura, sem baixar o olhar, tirou com paciência a embalagem. Seus dedos ossudos e de pele mole ouviam o rasgar do papel de pão igual a cigarras em noite de lua cheia, achando aquele barulhinho mais interessante que o conteúdo que guardava. O coração de Brinquedo descompassava: uma criança exasperada se seu herói de faroeste ainda lutaria depois de ter levado um tiro do vilão.

Quando, quase por acidente, as mãos de Rapadura tocaram a gasta e lascada madeira da caixa de vazios, um tipo de eletricidade o fez tremer de emoção. Seu olhar, antes incerto e duvidoso, virou célere para ver aquilo. Girou, mexeu, remexeu e tocou na peça antes mesmo de abri-la. Rapadura percebeu a caixa e Brinquedo, ansioso, observava as ações do tio sem interferir. Ele não sabia o que estava acontecendo, mas sentia que era algo bom, algo significativo o suficiente para despertar o tio.

– É sua, tio. Estou dando pra você. – falou, temendo que o tio talvez não entendesse aquilo.

Capitão Rapadura sorriu e abriu a caixa. Não havia nada lá, a caixa estava vazia da mesma forma: não mais larga que suas duas mãos abertas nem mais alta que seu punho fechado. Rapadura ria e chorava ao mesmo tempo, passando suas mãos pela madeira interna, movendo devagar a portinhola para ouvir as notas longas de suas dobradiças enferrujadas.

Brinquedo estava ansioso. “O que será que ele lembrou?”, perguntava-se contendo a si mesmo, dando o tempo que seu tio precisava para entender aquilo que se passava com ele, lembrando da sensação de quando recebera a caixa a primeira vez: o grande mistério do presente especial hoje é a memória do próprio tio.

– Gostou da caixa de vazios, tio Rapa? – perguntou Brinquedo, já no limite de seu autocontrole.

– Vazios? – sorriu Rapadura – mas essa caixa está cheia! Transbordando de coisas que não cabem dentro dela!

Brinquedo sorriu confuso. Temeu ter perdido o tio de vez e a esperança já derramava-se para fora de seu coração quando Capitão Rapadura tocou em seu braço, mostrando-lhe a caixa aberta.

– Veja, querido sobrinho, seus torneios de bila logo depois que eu lhe dei essa caixa! Veja sua apaixonada adolescência na escola! E seus anos de faculdade! Seu casamento! Seus filhos! Como pode dizer que esta caixa é de vazios? Ela é cheia de você! Lotada de suas memórias! E quantas memórias lindas, meu sobrinho! É como se eu vivesse uma nova vida pelos seus olhos!

Brinquedo engoliu em seco, os olhos com lágrimas em suspensão, incertas de caírem. Capitão Rapadura não tinha lembrado de coisa alguma sobre si mesmo, mas, ao contrário, ele viu na caixa a própria história do sobrinho e, nisso, Brinquedo entendeu a “caixa de vazios”: era uma forma do tio lhe dizer que sempre era possível recomeçar, mas reconhecendo que o que vivemos antes nos marca eternamente.

Brinquedo abraçou o tio com afeto. Ele sabia que ali era uma despedida, mas ele não quis prender o herói ou deixar de mostrá-lo que sentiria sua falta. Rapadura devolveu o abraço e depois olhou para o sobrinho com os vivos olhos de super-herói, segurando a cabeça de Brinquedo com as duas mãos.

– Obrigado, meu querido, por ter me dado minha última aventura, e mais ainda por ela ser você.

Assim, Brinquedo colocou o tio em seu colo, como se faz com criança pequena. A caixa por sobre seu peito, o corpo leve e pacífico. Olhou para o céu sem nuvens, azul e grandioso. Brinquedo pensou então que aquele céu estava cheio de vazios prontos para serem preenchidos… por vários recomeços.

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