O Resgate do Cangaço em 3 Atos


Falar sobre cangaço, com seus pontos positivos e negativos, é perscrutar nossa própria história, rever as raízes e tentar entender parte dos ciclos sociais que nos formaram, as lutas que trouxeram calos e calor à alma.

Há alguns anos (no pós Estórias Gerais, diga-se de passagem), o cangaço voltou a ser tema recorrente às histórias em quadrinhos. As razões para tal podem estar relacionadas a esse desejo natural humano em redirecionar-se ao que lhe é comum, mas também, acredito, eram prenúncios para as mudanças sociais que estavam em curso e um sentido de buscar, em nossos incertos heróis históricos, a força para enfrentar os novos tempos que vêm se revelando desde 2016-2020.

Decidi separar três obras, ou três “atos”, que acredito mostrar diferentes faces deste cangaço tão sertanejo e nordestino:

1. Lampião... Era o Cavalo do Tempo Atras da Besta da Vida, de Klévisson Viana: através da reconstituição “oral” de um narrador interiorano, Klévisson Viana retoma a morte do chamado Rei do Cangaço, Lampião, buscando as razões sociais e míticas que dão corpo a sua figura. É um resgate histórico bravamente bem documentado e orquestrado pelo traço cartum vivo e intenso de Klévisson, que, já na época, não era um neófito nos quadrinhos e aproveitou seu repertório como cordelista para criar uma obra que, até em suas falas, representa o povo nordestino. Um trabalho para se ler e reler de tempos em tempos. Ganhou o HQ Mix de melhor Graphic Novel, em 1998.

2. Bando de Dois, de Danilo Beyruth: vindo numa toada moderna aos quadrinhos - e uma renascença da mídia no Brasil lá entre 2008 e 2010 -, que mesclava linguagem cinematográfica à narrativa gráfica, e com uma trama simples, mas cheia de energia e extremamente envolvente, Danilo Beyruth cria um conto faroeste-cangaceiro de vingança, honra e muita ação. O quadrinho já foi publicado na Europa e na Argentina, levando ao mundo a estética do cangaço nordestino, mas, principalmente, mostrando ao leitor brasileiro o poder das figuras de sua própria terra. Também ganhou HQ Mix de melhor álbum e melhor roteirista em 2010.

3. Cangaço Overdrive, de Zé Wellington e Walter Geovani: Zé é autor sobralense e começou sua carreira fazendo histórias curtas para coletâneas de ficção, trabalhando com cenários distantes de suas terras natais. Em 2017-2018, uniu mente com o desenhista Walter Geovani (conhecido por ter trabalhado durante muito tempo com o título americano Red Sonja), e juntos lançaram este quadrinho que une a ficção científica do “cyberpunk” (gênero em que o futuro é representado com tecnologias avançadíssimas, mas péssimas condições de vida) com a luta de classes do cangaço: numa forma de sincronizar o passado com o futuro para, na verdade, evidenciar problemas do presente. O quadrinho resgata toda a essência da clássica revista Heavy Metal em um contexto poderosamente nordestino, tanto em seus problemas, como em seus arroubos de esperança. Chegou a concorrer na primeira fase do prêmio Jabuti.

O tempo todo, acredito, a arte procura retratar o “fim do mundo” - não aquele fim bíblico, apocalíptico e apoteótico - mas o fim dos tempos, o fim de um pensamento, corrente, movimento, sociedade. Todo fim, no entanto, é o prenúncio de um começo, e a “roda cosmológica” que leva de um ponto a outro é girada pelos “heróis”, que nada mais são do que a face do povo, pois é do povo que a mudança nasce, e para ele que ela ocorre. Assim foi com os movimentos dos palmares, o cangaço, a luta indígena e tantas outras - e enquanto a roda do mundo precisar girar, existirá quadrinistas documentando esses feitos.

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