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Jesus, o cozinheiro

Fim dos tempos (de novo), Deus resolveu puxar o apocalipse de vez. Jesus sempre foi meio contra. Menino de ideias modernistas, mas que respeitava muito o pai. A primeira vez aceitou passar pelo calvário, mas sentiu que as coisas não saíram bem do jeito que imaginou.

“Poxa, pai. Eles continuam se matando! Tem certeza que tinha de ser assim mesmo?”

Deus, biblicamente épico, manteve-se irredutível, mas em seu íntimo resolveu parar pra pensar sobre os questionamentos do filho. Ele é de outro tempo, poderia ter uma visão mais atualizada, e viveu como humano, um ponto de vista que não deveria ser negado.

Deus esperou de forma lenta pela mudança e 2000 mil anos se passaram. Jesus continuava ali nas bordas do céu, olhando os humanos com ansiedade divina. Resgatando suas esperanças na salvação ao mesmo tempo que as perdia. Aquilo impacientou Deus e ele, cataclísmico, chamou o apocalipse definitivo.

Jesus, pobre Jesus, levou mais mil anos tentando conter a irredutível fúria do pai. Por fim, Deus cedeu. Afinal, era seu único filho, e um bom rapaz. Merecia uma chance de provar que poderia fazer as coisas diferentes.

“Vá. Você tem 1000 anos. Se depois disso você não conseguir salvá-los, nada que disser me impedirá de fazer as coisas do meu jeito.”

Então, Jesus desceu à Terra (de novo), como criança (de novo), mas dessa vez sem grandes alardes. Viveu seus primeiros anos entre meninos de rua, limpando carros, pedindo dinheiro, dividindo pão, xilito, coca e cola entre eles. Sua adolescência foi em casa de shows, conheceu pessoas cis e trans, brincou, dormiu e viveu com elas. Viajou boa parte do mundo, conheceu pessoas, animais, empresas, lugares, situações, pagou e cobrou, se endividou e quitou. Aproveitando de seus direitos divinos, não trouxe mortos à vida, ou curou doentes, mas aprendeu sobre medicina e conservação de cadáveres. Também não pregou entre os gentios, mas fez algumas propagandas para a TV e entrou em vários grupos do Facebook. Não transformou água em vinho, mas fazia um ótimo bolo de maconha. Ele não falou sobre o reino de seu pai, mas ouviu muito, muito mesmo, sobre Deus, o diabo, deuses, ciências, alienígenas, políticas, esperanças, desesperanças, preconceitos, ditaduras… Jesus simplesmente não parava de ouvir as coisas, as pessoas, o mundo.

Mas o tempo de Jesus estava acabando (mil anos é como um dia para algumas divindades cristãs) e percebeu que deveria agir. Basicamente, o que Deus queria era paz e harmonia (menos violência, mais amor), apesar do que está escrito nos mandamentos, ele seria tolerante com a maioria das coisas se os humanos amassem mais uns aos outros e fossem mais cooperativos, menos agressivos, mais compreensivos, mais humildes e complacentes, menos ditadores e mais irmãos (de uma forma positiva, claro). Jesus percebeu o quão difícil seria essa tarefa, pois as pessoas eram bastante individuais, bastante únicas, e lutavam muito para manter essa individualidade.

“As pessoas não se escutam e nem falam a verdade”

Jesus então lembrou de suas caminhadas, percebeu que não adiantava simplesmente falar ou ouvir, ele precisava do momento certo, da situação ideal. Pensou em que instante as pessoas estariam mais abertas a escutar e a falar, quando em seus dias elas estariam mais suscetíveis a não mentir, estariam abertas ao novo, à compreensão, em que estariam calmas (ou que tentariam estar)…

“Oh! Por mim mesmo!”, exclamou redundantemente o divino Jesus, “comida”. Ele percebeu que palanques de orações, catedrais dizimistas e berrantes pregações em locais públicos não atrairiam pessoas – falando sozinho essas palavras, ele mesmo sentiu alguma repulsa pelas situações – mas mesas de almoço, encontros em restaurantes e bares, situações com amigos, boas conversas regadas de boas comidas… esses sim eram momentos interessantes para falar às pessoas… para tentar ajudá-las a mudar, a verem o melhor de si mesmas e dos outros.

Antes, Jesus deveria aprender a cozinhar. Transformar água em vinho é fácil, é só mágica, dividir pães e peixes entre milhões também foi fácil, eles já estavam prontos para o consumo. Além disso, Jesus não queria ter que ficar apelando para milagres o tempo todo, ele queria fazer por si só, mexer nos temperos, nos condimentos, criar os próprios pratos do jeito humano de tratar tudo aquilo.

“Afinal, há milagre maior que mudar a humanidade sendo humano?”

Sem dinheiro (como sempre), Jesus foi em busca de favores. Ora, por ser tão boa praça, os amigos que conseguiu ao redor do mundo o ajudaram com alegria (ele ainda pensou em formar apóstolos novamente, mas daí lembrou de Judas…). Não pretendia entrar em cursos de culinária ou fazer parte de grandes restaurantes ou mesmo viver entre os grandes chefes. Não não. Jesus queria o alimento das pessoas, feito pelas famílias, criado nos lugares mais comuns ou mais inesperados, entre tribos, entre amigos, com o menor que o mundo tem a oferecer e com o maior também. Ele queria aprender a como cozinhar sem deixar restos, como cozinhar para o outro e pelo outro, tendo realmente o prazer (e que o pai o perdoasse por isso) de preparar a comida, pois uma porção dele mesmo estaria naquilo.

“É como a tal hóstia, mas com temperos.”

Jesus, então, recomeçou sua viagem, agora como aprendiz. Aprendeu a fazer molhos com as mammas italianas, quentinhas com as adolescentes japonesas, pão com padeiros franceses, colher frutas com tribalistas africanos, retirou os melhores insetos dos criadouros chineses, entendeu sobre vegetais com tailandeses, fez cerveja e whisky com irlandeses, provou dos fast foods à beira da esquina com americanos, costurou bucho de bode com brasileiros… e uma vez tendo percebido que chegou finalmente onde queria, ele se pôs a viajar (de novo).

Jesus conseguiu um velho trailer de cozinha, convidou uma reencarnação de Maria Madalena para ser sua sous chef, um de João pra ser o motorista e avançou por além das capitais. Primeiro seguiu para vilas, derrubando com molhos as culturas de violência, depois avançou pelas fronteiras de guerra, deixando que os farinhados falassem sobre o ‘reconhecer-se no outro’, dividiu arroz entre os homens enquanto eles aprendiam com bocas cheias que mulheres e crianças não eram suas propriedades, criou pontes entre povos inimigos feitas de macarrão e almôndegas (numa igualitária reprise de A Dama e o Vagabundo)… e quando os caminhos dos campos transbordavam flores de humildade e igualdade, ele seguiu para as cidades grandes.

Os passantes que resistiam em silêncio tiveram de sair das telas de seus tablets e celulares quando sentiram o cheiro das comidas de Jesus. O trailer andava pelas ruas e as pessoas o acompanhavam. Quando parava, João colocava mesas do lado de fora e Madalena escrevia os pratos da vez em uma lousa de giz, Jesus cortava legumes e conversava com as sorridentes pessoas que lá passavam. Quando um certo número de pessoas havia feito seus pedidos, Madalena assumia a cozinha e Jesus começava a conversar com os comensais, tornando desconhecidos conhecidos e rindo com suas histórias ou chorando com suas experiências.

Em um determinado momento, as mesas, antes separadas, eram todas unidas e é como se todos ali estivessem em uma sessão divertida de terapia. Ao chegar nesse ponto, Jesus trazia os descamisados e viventes nas ruas, as crianças sem chinelos ou os velhos sem esperança. Diferente de qualquer assistencialismo, ele não dava comida e dispensava essas pessoas, ele as dava cadeiras, conversava com elas e mostrava que eram especiais ali. No entanto os que já estavam, os privilegiados e favorecidos que haviam chegado primeiro, olhavam pra tudo aquilo incertos, duvidosos. Temendo a próxima atitude daquela gente fedorenta e mal vestida que sentava à mesa. Eles queriam sair e Jesus não os pedia pra ficar, mas também queriam ficar, pois se sentiam no direito de ficar, e Jesus não os impedia de sair.

Então, Jesus pedia as batatas, as macaxeiras, os queijos e pegava vinho de trás do balcão e começava a fazer perguntas a todos. Perguntava sobre suas vidas, pedia que contassem suas histórias enquanto colocava adicionais que ele mesmo criara nos pratos ali. Todos compartilharam suas vidas, suas experiências, vários choraram, abraços foram trocados, telefones, endereços. Os comensais se entre olharam, incertos, mas comovidos, e sentiram ser uma família. Resolveram ajudar uns aos outros, aqueles que eles temiam, aqueles que eles desconheciam, aqueles que tinham menos e mesmo os que tinham mais, mas que não tinham algo. Jesus sorriu para aquilo e pegou na mão de Maria. Ele ficaria mais um mês ali pra garantir que naquele dia em que todos sentaram em suas mesas, tornando-a uma depois, e dividiram suas vidas, continuem lembrando o quão importantes e relevantes se tornaram pra vida uns dos outros. Afinal, preocupar-se com os dias seguintes nunca estivera nos planos de sua primeira vinda e como ele vem refazendo tudo… Parece óbvio agora que morrer e ressuscitar não é garantia de muita coisa.

Com a primeira experiência bem sucedida, Jesus seguiu para outros cantos da cidade. Entrou em escritórios, prisões, casas de prostituição, escolas, favelas… com seus divinos pratos, revelou violências caseiras, erradicou tráficos de pessoas, trouxe aceitação aos que sofrem preconceitos, trocou vícios por drogas pelo prazer de uma torta de chocolate dividida na comunidade. Jesus foi além, ele plantou, semeou e colheu e as pessoas também fizeram isso com ele e também fizeram juntas umas com as outras, umas pelas outras.

Então, de maneira natural, depois que as pessoas se perceberam e perceberam a importância que tinham individualmente e como uma grande família mundial, decidiram fazer algo pelo mundo em que viviam e Jesus percebeu que era hora de voltar a casa de seu pai. Ele o fez sem alardes, sem ressurreições, sem andar pelo vale dos mortos, sem descer aos infernos. Era um grande jantar e mil pessoas casavam e riam e tinham filhos e conheciam novas famílias. Jesus rio entre elas, abraçou várias, beijou a testa de crianças, então, partiu.

Ninguém sabe mais dele. Ninguém sequer o chamou Jesus. Todos lembravam simplesmente d”O Cozinheiro” e nem lembravam bem o que ele tinha feito ou o que tinha dito, mas lembravam de como se conheceram em suas mesas de almoço, em seus piqueniques de café da manhã. Lembravam da vez em que ele preparou macarronada e mães aceitaram filhas, e filhos perdoaram pais, em quando ele fez um arroz que terminou uma guerra de mais de 100 anos, em como, provando suas sobremesas, as pessoas decidiam deixar seus preconceitos, regras e religiões de lado e viver como família, uma grande família que está sempre pronta para por a mesa e dividir o pão. As pessoas não lembravam de Jesus, mas lembravam o quanto amavam outras pessoas e o quanto isso era importante.

Jesus então retornou à casa celeste. As hostes o receberam com certa apreensão.

“Ele não parece… divino… ele parece… humano” comentavam entre burburinhos.

Jesus adentrou ao salão de Deus e o grandioso o fulminou com um olhar armagedônico. Afinal, ele desceu à Terra e pode até ter conseguido paz e compreensão, mas… onde está a palavra divina, o temor a Deus, a sensação de culpa pelas regras quebradas? Onde está o desejo de estar com o pai maior? Mas seu primogênito somente sorria pra ele, um verdadeiro e saudoso sorriso, enquanto mantinha as mãos para trás.

Sem dizer palavra, Deus avançou até Jesus, pronto para usar o próprio filho como relâmpago do apocalipse na Terra, esfacelando aquele sorrisinho cínico no solo da pequena bola azul do firmamento. Antes que a ira divina chegasse, no entanto, Jesus estendeu sua mão e nela havia um bolinho simples, com recheio de chocolate e raspas de coco no topo.

“Obrigado pela oportunidade, pai. Foi tudo muito bom. Esse bolinho é para o senhor, como agradecimento”, disse sorrindo de forma orgulhosa e infantil.

Deus, sem desfazer a carranca, deu a primeira mordida e era como se ele revesse sua empolgação na criação da existência, sentisse a emoção da primeira supernova, o comovente caminhar do primeiro ser que saiu da água, o nervosismo do primeiro vivente que olhou para os céus e o agradeceu. Deus sentiu tudo aquilo comendo aquele bolinho e viu seu filho, humanamente cansado, recostando-se em suas pernas e pegou-o nos braços. Foi até seu trono e o aninhou, finalmente entendendo o calor da tão clamada palavra “Pai”, sorrindo pelo sono de sua cria.

Encantado, Deus mordeu mais uma vez seu bolinho. O apocalipse pode esperar.

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