Influências e Consciência Criativa


Eu já comentei aqui sobre minha primeira ideia acerca de Lâmina Azulada: o desejo de contar a história de um Kamen Rider. Dizer que isso mudou é me repetir, bem como relembrar a razão de ter mudado. Vou me concentrar hoje, então, na jornada… no como mudou.


Uma coisa interessante é que o roteiro de Lâminha Azulada meio que seguiu uma parte de meu processo em ser escritor (e escritor de quadrinhos) e como eu fui mudando minha maneira de ler, pensar, ver, interpretar, analisar e compreender minha própria obra (e a de outros autores). Foi, na verdade, meu “caderno de atividades” pra cada coisa que eu estudava.


Quando comecei meus primeiros escritos longos - eu fiz muitas poesias, crônicas e contos no caminho entre minha adolescência e o começo da vida adulta - eu tinha dificuldade em terminar as histórias (como todo jovem autor, acredito) e, depois de um tempo, eu percebi que talvez fosse necessário eu aprender as estruturas. Assim, li McKee, Platão e Fiorin (nunca menospreze o material do colégio), Eisner, McCloud, O'Neil, Syd Field, e, claro, Vogler. Todos pareciam bem interessantes e atraentes e, para um neófito no ofício, eram descobertas curiosas e enriquecedoras. O autor, que, no entanto, me fez parar pra rever todo meu processo foi, sem dúvida, Joseph Campbell.


Campbell era uma nota de rodapé de luxo em A Jornada do Escritor de Christopher Vogler e isso fez com que eu quisesse me aprofundar em sua obra. O Herói de Mil Faces foi o primeiro que comprei do autor e eu praticamente o devorei, pra depois relê-lo com mais cuidado. A tal “jornada do herói" foi primeiro teorizada lá, mas há muito mais em volta dela. O escopo dos estudos de Campbell se desdobravam em tantos elementos e de tantas formas que o livro de Vogler somente arranhava sua superfície - apesar de fazê-lo com certa objetividade ao ofício da escrita. Dessa forma, acabei também adquirindo o primeiro volume de As Máscaras de Deus e O Poder do Mito e fui montando uma estrutura simbólica e narrativa que servisse à minha escrita e forma de pensar.


A partir desse ponto, eu queria utilizar Lâmina Azulada não somente como obra, mas como “peça acadêmica” e criar um texto épico que pudesse reinterpretar muitos dos elementos míticos que Campbell aborda. O engraçado (e irônico) disso é que, para o estudioso, os mitos possuem funções bem claras e direcionadas, pegando os elementos que necessitam para, enfim, apresentarem suas ideias, formulando suas lições no processo. Em outros termos, meu desejo de pensar na “salada mítica” atrapalharia mais do que ajudaria a contar minha história, então, era preciso direcionar melhor meus pensamentos.


Como me ensinou Raphael Fernandes:

“você tem que saber a história que vai contar”.

Quando criamos, não pensamos tanto assim - depois das coisas feitas, nos debulhamos em mil análises e interpretações, mas há um momento em que o pensamento subjetivo e intuitivo domina tudo. Mark Waid uma vez disse que a parte em que mais se divertia em escrever são as “preliminares”, quando ele não está fazendo tecnicamente o texto, mas burilando as ideias, colocando, sem censura, tudo o que vem à mente, pra só depois lapidar.


Assim, decidi fazer isso, então escrevi algumas páginas contando tudo o que aconteceria em minha história, como se estivesse em uma conversa de bar ou escrevendo uma carta a um amigo. Boa parte das ideias que hoje compõem o texto final apareceram nesse primeiro (segundo?) rascunho - que deve ter tomado de 6 a 8 meses pra ser finalizado. Obviamente não foi o definitivo, mas foi à partir dele que pude lapidar melhor as arestas e decidir para que lugar iriam Euclides e Severino.


Apesar disso, algumas coisas ainda não estavam boas. Os capítulos e atos não se relacionavam bem - ou seja, não bastava eu saber o que tinha de escrever, mas como fazê-lo era igualmente importante.


Puxei então uma lição do Daniel Brandão

“se você tem dúvida de como fazer, procure quem já fez igual e aprenda, desenvolvendo seu próprio jeito”.

que, em outras palavras, é basicamente dizer

roube como um artista”.

Bem, era hora de buscar referências na própria arte. Vou numerá-las a seguir e comentar cada uma.


1. Novelas de Cavalaria

Quando eu estava na universidade, durante a disciplina de Literatura Portuguesa, eu fiquei fascinado pela história de Amadis de Gaula, considerada uma das primeiras (se não a primeira) novela de cavalaria em língua portuguesa (ou espanhola... há uma contenda acadêmica fascinante; tópico pra um outro momento). Ela tem todos os elementos de uma história medieval: romance, honra, nobreza, sacrifício. Fiquei tentado a refazê-la num contexto do cangaço, mas ao me aproximar disso, eu iria (novamente) refazer quase todo meu roteiro e, pior, perderia o tema central da história que eu queria contar (oh, as armadilhas que as pesquisas nos trazem). Mesmo assim, as novelas de cavalaria estão de alguma forma em Lâmina Azulada: apesar dos cangaceiros não seguirem os mesmos etos do cavaleiro medievo, suas fraternidades se assemelham e eu procurei trazer algo desses símbolos pra minha história. Assim, as referências arturianas são as mais fortes que as de Amadis.

Logo de cara, é possível perceber a crônica cavaleirescas de Howard Pyle por quase todo o texto - acredito que tenha roubado até parte de seu estilo de diálogo e em algum rascunho cheguei a adaptar falas - mas acredito que a mais forte referência seja o filme Excalibur (1981), de John Boorman, que deixou uma marca poderosa em meu imaginário quando o assisti, ainda muito criança. Tanto elementos fantásticos quanto alguns personagens de minha história vieram diretamente desse filme. Eu o reassisti um pouco antes do texto final de Lâmina e, apesar de não considerar que ele envelheceu tão nobremente, visualmente ainda é um deleite e a tragédia de sua história é uma estrutura a ser apreciada sempre.


Howard Pyle é conhecido também e principalmente por suas ilustrações. Arrisco dizer que uma das principais referências dos artistas de D&D. Nessa imagem: "Death of Siegfried".

2. José de Alencar

Essa ideia de misturar elementos dos clássicos épicos com folclores e mitos locais não é de hoje e, talvez, em língua portuguesa, Camões e seus Lusíadas sejam o maior exemplo do feito. No entanto, a literatura de José de Alencar com certeza - e pela graça das fichas de leitura do ensino fundamental - foi a que mais me impactou. Alencar, por menos querido que fosse dos alunos do ensino regular brasileiro, à sua época, era um escritor muito popular. Ele sabia fazer literatura universal com uma cara brasileira, com elementos reconhecíveis ao nosso povo, mesmo que esses não fossem realmente fiéis à realidade: eram simulacros épicos de um Brasil mítico, heróico e dramático. Ubirajara, Iracema, O Guarani, O Gaúcho, O Sertanejo, todas obras que retratam a brasilidade bêbeda de uma fonte literária grega até o talo. Reclame quem queira reclamar, mas Alencar era um gênio da literatura popular, ao meu ver tão importante para a literatura ficcional quanto Marion Zimmer Bradley ou Robert E Howard ou Edgar Rice Burroughs.


3. Canções e composições nordestinas

Durante os escritos finais de Lâmina Azulada - especialmente nas revisões do clímax - eu entrei em parafuso porque senti o tom daquele final destoante do resto da obra. Alguma coisa parecia fora do lugar, como se falada em outra língua, e eu não sabia como resolver tal problema. A resposta veio através de uma publicação de Zé Wellington sobre seu processo para escrever Steampunk Ladies, em que ele disse que “acertou o tom” depois que começou a ouvir Amanda Palmer. Eu não sou o tipo de autor que escreve ouvindo música, porque as coisas entram em conflito na minha cabeça, mas decidi fazer outro rascunho ao som do que eu esperava ser a trilha sonora de meu trabalho. Comecei com Alceu Valença e deixei o YouTube comandar a aleatoriedade. Elomar, Xangai, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Fagner, Dominguinhos, Gonzagão… há uma nordestinidade entranhada nas músicas desses artistas. Há identidade, são canções reconhecíveis, únicas. Quase que de repente, eu fui pegando o tom, entendendo como a ação deveria ser, reestruturando a fala dos personagens, a forma deles aparecerem no "teatro" do quadrinho: uma ópera com uma música feita na terra seca, na sombra da oiticica, no bafo quente do sertão. Deve ter algum estudo neurológico (ou psicológico) que explique esse fenômeno que a música faz conosco, até que eu o encontre, agradeço imensamente por ter roubado a ideia do Zé.

Cartaz de "A Luneta do Tempo" de Alceu Valença. Quando me refiro a uma estética do cangaço, o nordeste inteiro responde de alguma forma.

4. João Cabral de Melo Neto

Acima de todas as referências que eu citei, os poemas de João Cabral de Melo Neto foram minha bússola nessa jornada escrita. Não à toa o nome do vilão de Lâmina Azulada é Severino, um resgate de seu mais conhecido trabalho, Morte e Vida Severina, uma epopeia sem comparação com qualquer obra literária que retrate a terra e o povo. Melo Neto era o deus invisível de meus personagens e a voz em minha cabeça. Sempre que eu me sentia travado no texto, eu procurava inspiração em seus trabalhos. Mesmo o título, Lâmina Azulada, foi descaradamente retirado de um de seus versos: Uma Faca Só Lâmina - Cabral é um autor que se embrenhou na minha história, sugerindo os “nós” da narrativa com seus versos “de pedra”. Um mestre.


Há muitas outras referências que gostaria de dividir, mas cada coisa a seu tempo. Tudo vai sendo revelado aos poucos e acredito que logo poderei dividir com todos algumas páginas previews. Esse mês de julho é de muitos ajustes, mas acredito que entre agosto e setembro poderei oferecer mais sobre Lâmina Azulada além desses textos.


Fiquem ligados.


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