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Histórias Tristes & Piadas Ruins de Laura Athayde


A arte das histórias em quadrinhos é, dentre todos seus poderosos atributos, uma arte imagética. A construção de significado é feita através do trabalho com a imagem - a ponto, arrisco dizer com indelével certeza, de que mesmo o texto é um tipo de imagem quando presente em uma história em quadrinhos.

Dessa forma, os melhores narradores não são necessariamente aqueles que possuem grandes ideias, mas principalmente aqueles que conseguem “dobrar” a imagem à suas ideias, apresentando histórias, exposições ou documentações que informam/cativam muito ao olhar antes mesmo da leitura textual em si - e, tendo em vista isso, quanto mais autoras e/ou autores de HQs conseguem multiplicar as possibilidades de leitura das imagens, mais estão propensas a tornar suas ideias palatáveis e, por sua vez, também mais próximas estarão dos salões da genialidade ou, mais importante ainda, da popularidade sem fronteiras.

Seguindo essa lógica - em minha humilde e eterna busca por leituras - deparei-me com Laura Athayde, ainda, diria, neófita na mídia quando de seus primeiros trabalhos (Arquipélago, para ser específico, publicação de 2015-2016), mas com “alguma coisa especial” no uso das imagens que me deixou com os sentidos apurados para seus próximos passos. Acompanhá-la na internet não era (é) difícil e sua produção é constante, indo da publicidade ao editorial, porém muito mais rica e impressionante quando se trata de quadrinhos.

Versatilidade é uma palavra que comporta pouco tudo o que Laura Athayde consegue fazer com seus quadrinhos. Com traços que variam facilmente entre diferentes estilos e um senso estético narrativo apurado e clínico, Laura consegue fazer de suas tirinhas um agradável deleite, mas também emocionante por si só.

Na publicação Histórias Tristes & Piadas Ruins (vencedor do prêmio HQ Mix de 2019 na categoria Publicação Independente de Autor), a egressa do curso de Direito e hoje importante artista do mercado de quadrinhos brasileiros reúne muito de sua produção no formato página e charge, misturando estilos e técnicas que servem a um texto objetivo, filosófico e poético, bem como, divertido e bastante comovente. Laura passeia por temas por vezes nada fáceis, como sexo, amores frustrados, assédio e rotina, com imensa desenvoltura e um tato empático único - seu roteiro nunca é irresponsável e seus desenhos não cansam, numa miríade de perícias aplicada a uma publicação editorial cuidadosa e que não deixa de lado certo experimentalismo, impressionando por sua qualidade, tendo em vista que foi lançada de forma independente (através da plataforma de financiamento coletivo Catarse).

Como se fossem poucos todos os atributos positivos de Histórias Tristes & Piadas Ruins, ele ainda vem com um “mini-livro” encartado, com a maior parte da produção em tiras de Athayde, tornando todo o projeto editorial ainda mais encantador - Não à toa, rapidamente a publicação esgotou em lojas online e lojas de quadrinhos, sendo agora uma peça de colecionador.

No entanto, o que mais me impressiona nas obras de Laura Athayde é certo didatismo aliado a um trabalho socialmente engajado, que leva a repensar as relações afetivas com os outros e com nós mesmos, o cuidado mental e emocional que se é preciso ter em tempos tão complicados de mudanças tão incertas e um inteligente movimento de contestação do status quo - tudo feito em HQs sagazes que não subestimam quem as lê. Não à toa, ela continuou este pensamento em seu projeto “Aconteceu comigo”, o qual procura contar histórias reais de discriminações sofridas por mulheres, projeto que também gerou um livro publicado pela Balão Editorial, mas que me comprometo a falar sobre em um outro momento.

Expediente: Histórias Tristes & Piadas Ruins, por Laura Athayde, 2018: Publicação independente. 100 páginas.

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