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Desestruturar

Nesta noite quente em que seu perfume dorme por sobre mim, cozido pelo calor das lembranças e fervido no suor que esfria os lençóis, eu só quero poder reduzir-te a uma porção – tão pequena que caberia em toda minha boca arfante e tão pesada que não demoraria em minha garganta – um quinhão tão denso quanto uma galáxia, tão potente quanto todos estes universos invisíveis que me fazem tão menor, tão insignificante, e ainda assim, eu te engulo com facilidade, com voracidade, com a fome de mil vidas – fome que sinto agora, violenta e prazerosa.

Te engulo e dentro de mim você toma cada órgão de meu corpo, se espalha pelas minhas células, liberta as cadeias de DNA, desfaz o que eu sou por dentro, não para me destruir, mas para me tornar seu, para que meu sangue, carne, bile sejam posses suas – posses que vêm do início dos tempos, do crepúsculo dos deuses, das explosões dos quasares – posse irrevogável, indelével, tão impossível que ninguém duvidaria ser não-natural, porque nunca foi, nem é e jamais será.

Tu renascerá não como outro tu, nem eu como outro eu, mas a desestrutura indivisível do que somos nós.

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