O Antes e o Agora

Atualizado: 1 de Jun de 2019

Porque tudo que é vivo, morre

Ariano Suassuna, em O Alto da Compadecida.

Esse ano eu lanço minha primeira graphic novel: Lâmina Azulada. O quadrinho conta a história de Euclides, um velho cangaceiro que, no final de sua vida, tem sua morte “negada” por Severino, o barqueiro dos mortos. Na esperança de reencontrar sua própria “mortalidade”, ele busca por um mítico artefato, a Lâmina Azulada, para, com ela, convencer Severino de seu direito.


Confesso que não era essa minha ideia com relação a essa obra. Na verdade, talvez se não fosse meu bom amigo Kaléo Mendes, eu teria contado a história de um Kamen Rider.


Para os que não sabem, Kamen Rider é um herói super sentai japonês criado por Shotaro Ishinomori e que tem o gafanhoto como símbolo de seu poder. No Brasil, lá por volta dos anos de 1990, uma de suas versões, o Black Kamen Rider, foi transmitido pela rede de TV Manchete e eu era completamente fascinado pelo personagem. Depois dele, os animes estouraram e eu (e muitos pré-adolescentes da época) ficamos viciados em cultura pop japonesa.


Dessa forma e, assim como muitos, eu estava mais interessado em contar histórias de caras com armaduras que surgiam por magia ou ninjas ou samurais. Desejo que foi diluindo com o tempo, mas que retornou com força quando eu tive a “grande ideia” de um personagem que buscava por seu “direito de morrer”. Assim, ele não era um cangaceiro velho em um acordo mal-fadado com a morte, mas um sábio e honrado samurai enganado por um youkai. Bem como, ele não procuraria por uma lâmina azulada, mas pediria ao grande espírito gafanhoto para lhe dar o poder de um Kamen Rider: um cavaleiro gafanhoto samurai que destruiria os 7 pedaços do youkai para encontrar a chave dos portões da morte.


“Por que não usar temas mais regionais pra contar essa história? Tem de ser realmente um samurai?”

Com essa pergunta apoteótica, meu já citado amigo Kaléo afastou meus devaneios (e me frustrou um pouco). O mais importante, contudo, foi que me deixou com a pulga atrás da orelha.


“Por que afinal, eu insistia tanto em escrever histórias de culturas que não eram inicialmente a minha?”

Com isso eu comecei uma investigação por esses “símbolos nacionais” e acabei percebendo que realmente conhecia quase nada sobre o assunto. Ora, muito do que eu sabia sobre folclore e como este se relacionava à minha própria história (em termos de sociedade e cultura) era pelas obrigações de tirar boas notas no colégio - num entremeio das coisas que eu compreendia para passar de ano, mas esquecia pouco tempo depois.


Assim, tive de perceber (ou resgatar) algo que estava na minha cara, mas eu não via: os mitos e histórias por trás das festas juninas, do carnaval, do bumba-meu-boi, das procissões, das carpideiras, dos autos dos guerreiros, dos sertanejos, das bahianas, de parintins, das conversas nas calçadas, crendices, histórias de visages, literatura modernista etc. etc. etc. - a lista não só continua como eu a vivo pelo simples fato de ser brasileiro e nordestino. Uma vergonha alheia a minha cegueira pra quantidade de temas, cores, cânticos, mitos e estéticas que pertenciam à minha cultura. Das ladainhas católicas aos monstros folclóricos, havia um mundo inteiro a ser explorado bem na minha cara e era hora de eu dar a devida atenção a ele.


Chá de simancol tomado e a devida pesquisa feita, eu tinha de repensar o que fazer com minha ideia. Eu acredito que toda história deve começar com um bom personagem e - agora navegando por mares bem mais próximos - sabia que o mesmo deveria ter essa nova “face” que eu redescobrira.


Minha questão como autor era manter o conflito dos dois personagens principais: um velho combatente e um representante da morte que tivesse/fosse a “chave” entre os dois mundos. Inicialmente, o samurai, para o Ocidente, carrega muito a simbologia de honra e justiça - as quais fariam ele perseguir o youkai que roubara seu direito como mortal - sendo assim, esses aspectos não seriam só motor do personagem, mas poderiam servir como elementos complicadores em vários momentos da trama.


No entanto, não há nada que se compare ao consagrado guerreiro japonês na história ou folclore brasileiros - e isso não é um defeito. Afinal, não quer dizer que suas características não poderiam ser reformuladas: a “honra” não é uma pedra imutável, mas um elemento também cultural. Os mafiosos que servem ao Dom Vito de Puzo são honrados e leais à família, e, quando se desviam disso, são punidos com a morte. No Nordeste, os cangaceiros viviam a “honra do cangaço” - uma verdade única deles e (talvez) completamente incompreensível (ou inaceitável) para quem está de fora, tratando-a, inclusive, como banditismo.


A justiça também não é reta, mas completamente suscetível a quem a impõe. Os cangaceiros, em vários textos a respeito ou entrevistas dadas pelos que sobreviveram a essa época, insistem na busca por justiça - com esse conceito muito nebuloso entre quem aplica e cobra as leis e aqueles que a sentem.


Em resumo, "honra" e "justiça" são idealizações mutáveis e, uma pesquisa mais profunda sobre cada um dos vários prismas que compõem a cena histórica que deu origem e exterminou o cangaço pode levar a um conjunto de respostas incertas sobre questões sociais ainda mais complexas. No fim das contas, cada um possui sua verdade e, como autor, eu procurei não julgar meus personagens, mas os colocar dentro de um mundo de regras em que suas lógicas (deturpadas ou não) funcionariam.


A figura dos youkais também tinha de ser readaptada e eu confesso que preferi fazer empréstimos da Europa, dando-lhes uma roupagem nordestina: sai o demônio caótico japonês e entra o barqueiro do Hades, num estilo mais parecido com os espíritos de Dickens em A Christmas’ Carol, e falas inspirados forte (e descaradamente) na obra Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto e Os Verdes Abutres da Colina de José Alcides Pinto.


Assim, estava decidido: sai o samurai honrado para dar lugar ao cangaceiro amargurado Euclides. Este ainda seria velho, ainda seria impedido de morrer, e deveria lutar por seu direito à mortalidade. Também o confuso youkai oriental agora era Severino, o abutre da caatinga.


Eu tinha meus personagens, precisava somente começar a escrever, mas esse momento fica pra outra vez.



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