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Aquele dia em que tudo mudou sem mudar nada

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Era uma manhã fria em Fortaleza, com poucas nuvens. Um incomum dia de junho em que a luz suprimia o calor. Acordei cedo e organizei minha lista de atividades (pra evitar um burn out eu procuro sempre escrever todos os meus afazeres do dia ou da semana, assim eu acredito que eles ficam no papel e não na minha cabeça): 1. acompanhar a gravação de uma web-aula, 2. colocar crédito no meu bilhete de passagem, 3. passar na biblioteca da universidade para retirar o comprovante de “nada consta” e 4. pegar meu diploma.

Eu entrei para o curso de Letras (licenciatura português-inglês) em 2003. Entre trancos e barrancos, terminei minha graduação em 2015, ao entregar um artigo que mais parece o rascunho de alguma coisa (ou um arremendo de texto pra blog nerd). As razões pra tal demora são inúmeras e eu mesmo não queria me descascar analisando-as (até porque já tinha feito isso há algumas semanas numa entrevista de emprego, com uma incômoda – e aparentemente antiética – insistência da entrevistadora que tornou quarenta minutos de conversa numa investigação sobre minha demora em me formar).

Enfim, numa quarta feira de junho e dois anos depois de oficialmente “graduado”, fui “sacar” meu diploma no Departamento de Graduação da UECE, chegando à conclusão de algo que se estendeu por um pouco mais de dez anos, e que deixava um julgamento preso no dente das pessoas, como uma casca de feijão num sorriso, toda vez que eu falava sobre – e uma coceira nas costas da minha mão que nunca passava e eu sabia bem porquê.

Ainda relembrando esse dia antes do momento do tema, até mais ou menos umas 14:20 tudo parecia regularmente normal: a gravação tinha ido bem, apesar de demorada, o almoço estava razoável – apesar de meu carinho por comida do “mêi de rua” -, não havia ninguém na fila de crédito de passagem (o que me fez pensar por um instante que o sistema estava fora do ar, mas não) e retirar o “nada consta” da biblioteca da universidade foi bem mais fácil do que eu esperava.

Nesse ponto acho que as coisas começaram a me afetar, mesmo que de maneira ainda discreta – que nem quando o arroz começa a queimar e se tem a impressão de que se pode impedir isso, mas a verdade é que só se percebe a desgraça depois que ela já avançou ao menos um pouco. O Campus do Centro de Humanidades parecia o mesmo até em suas pessoas diferentes, e uma calmaria pós-almoço do Restaurante Universitário se esparramava nos bancos de concreto tal qual gato de rua.

Passei pela barraquinha de lanches que eu sempre comprava – na época eu lanchava “na conta”, mas pagava tudo no final do mês quando meu salário saía, hoje uma placa escrito “não vendemos fiado” em fonte negrito e repetida em duas cores me informava que alguns hábitos tiveram de ser repensados – e sentei por um instante em um dos bancos. Eu sentia aquela sensação estranha de culpa de pessoa mal agradecida: a universidade me permitiu conhecer minha esposa, formar meu grupo de RPG (com que jogo até hoje), me levou a trabalhos interessantes (e outros nem tanto), me trouxe alguns dos meus amigos mais próximos (que me fizeram de padrinho de casamento algumas vezes), me ensinou a ler e escrever (acredite, a educação antes disso não te ensina muito)… mas eu não conseguia me sentir feliz ou nostálgico por estar ali. Pelo contrário, aquele ambiente me incomodava, me afastava e deprimia. É como se todas as coisas boas que aconteceram em/durante a universidade fossem de uma vida paralela, despregada desse período. E não que eu não fosse envolvido com a vida da academia: fiz vários projetos, era figurinha carimbada em quase todos os horários de aula e cheguei a ser presidente do Centro Acadêmico – num conturbado período de greve que não garantiu muitas calouradas, mas muitas mesas de War.

Saí logo dali e parti para pegar o tal diploma no outro campus – quase do outro lado da cidade (por que isso, meu Deus?), ao menos agora existe ônibus direto pra lá (na minha época precisávamos andar uma avenida quase toda para pegar uma condução direta ou duplicar o caminho passando por um terminal, o que valeria o triplo do tempo de viagem dependendo da situação do trânsito) – e minha cabeça realmente começou a surtar.

Eu fiquei naquela de “mermão, esse negócio vai dar certo mesmo? Vai que eu chego lá e eles olham pro meu ‘nada consta’ feito de caneta e bic e dizem: ‘isso não é de verdade, zé ruela’, porque nem carimbo tem nesse troço. Ou eles vão puxar meu artigo – afinal, eu tô dizendo pra todo mundo que entreguei essa bagaça, mas não lembro nem da minha professora esculhambando o maldito texto – e dirão: ‘que porra é essa, rapaz? Isso aqui não serve nem pra disciplina de primeiro semestre’ e aí eles não vão querer entregar meu diploma porque logo de cara vão sacar como eu sou uma fraude e eu não vou ter como contra-argumentar porque eles estarão certos”.

Minha cabeça ia dessas coisas a “vou pegar meu diploma e entregar de volta porque não sou merecedor dele, mas deveria ficar com ele porque a educação no Brasil e a política são injustas e eu faço parte de uma massa que vai passar a vida inteira levando lapadas, então esse diploma é o mínimo de justiça divina que existe, mas começar as coisas do jeito errado, burlando o sistema sem tentar mudá-lo é hipócrita pra caralho…” enquanto eu seguia por um caminho dentro do meu antigo bairro, sentindo um cheiro de nostalgia igual a churrasquinho de esquina.

O ônibus parou, troquei o devaneio alucinado pela objetividade e segui até o Departamento. Fui atendido por um rapaz sério, mas gentil. Ele pediu o “nada consta” e minha identidade e disse pra eu esperar. Pensei que ele ia levar uns quinze minutos procurando meu diploma no meio de um amontado de outros papéis num grande balde escrito “pra queimar”. Ele voltou em menos de dois. Trouxe um envelope alaranjado, já usado, com leves rasgos. Pediu pra eu assinar dois outros papéis. Procurei replicar a assinatura na minha identidade, mas foi impossível. O tempo e certo nervosismo acrescido de uma infeliz insegurança misturaram os “r” e “l” e “i” do meu nome. Ele sorriu me entregando o envelope e dizendo que ele não poderia ser plastificado. Eu agradeci.

Tirei os papéis do envelope: meu histórico acadêmico e meu diploma, ambos com idade de dois anos sem o devido tratamento, mas inteiros em suas estruturas e conteúdos. Olhei incerto, não conseguindo ler toda a informação e relendo meu próprio nome umas três ou quatro vezes, temendo ter lido errado ou achando que aquele papel com símbolo translúcido não era meu. Mas estava tudo ali. Aparentemente certo. Ensaquei tudo e fui embora apressado.

Então, aquela vontade de chorar veio, mas eu não consegui fazê-lo. Não sei. Não me sentia triste, alegre, livre ou aliviado. A vontade de chorar estava lá, encheu meus pulmões como se eu estivesse me afogando, mas os olhos não queriam. Se fecharam e reviraram. Gritaram um silencioso ‘não’ e, por fim, o soro voltou. Tal qual álcool, evaporou sem deixar vestígios, só o cheiro. Mesmo sem conexão 3G, mandei uma mensagem pra minha esposa falando como me sentia. Foi o mais próximo de um choro que eu consegui. Segui pra parada. Peguei o ônibus. Rumei pra casa.

No caminho, peguei novamente o diploma. Olhei seu verso. No canto inferior um texto breve, parte escrito em fonte mecânica, parte feito a mão de forma apressada e garranchuda:

“… declara-se para os necessários efeitos que o (a) portador (a) do presente diploma teve como área de habilitação, a língua portuguesa e inglesa com suas respectivas literaturas”.

Meu coração estancou. Era um barco sozinho no meio do oceano ao fim de tarde. Não soube bem como descrever, mas eu de repente me vi à deriva. Tantos anos de experiência, tantos alunos formados – alguns tiveram seus diplomas antes do meu – tantos empregos, pessoas, livros e isso não falava tão alto quanto a burocracia daquele papel, o qual legitimava uma coisa que eu já exercia há tempos, como se minha vida real, impossível de se conter na folha, não fosse o suficiente.

Eu entendo o porquê da burocracia. Reconheço a razão, a importância. Até a aceito. Mas é impossível conter o coração que para em seu voo raso, ciente de que a petulante documentação nunca será capaz de representar verdadeiramente os dias, as rotinas, os suores, mas que é a principal forma de provar que você está apto e capaz de fazer algo que parece ter feito (bem) desde sempre.

Guardei o diploma. Minha cabeça vagou pelas ruas e lembrou de ligar para um amigo, pegar um dinheiro. Coincidentemente, ele trabalha no lugar que fora meu primeiro emprego. Ele atendeu e disse que tudo bem eu ir lá. Quando apareci, já no horário de saída, dou de cara com a mulher que foi minha primeira chefe, que me deu meu primeiro emprego e que me ensinou tudo o que sei sobre revisão – atividade que mais exerci na vida profissional. Sorri e agradeci a ela por ter acreditado em mim quando eu era tão novo, por ter tido paciência pra me ensinar. Ela se surpreendeu, mas agradeceu, sorrindo timidamente de volta e depois foi embora. Resolvi o que tinha de resolver e também segui meu rumo.

Caminhando até em casa me veio uma calmaria. Os passos eram dados de forma lenta, se protegendo dos obstáculos de fim de expediente: pessoas, carros, motos. Não senti que deveria me apressar ou que o tempo se acabava pra mim. Nem que ele começou. Eu ainda era aquele barquinho à deriva, observando parado o sol se pondo distante. Sentindo as águas amenas – verdes como o mar de Fortaleza – acalentando meu boiar. Me veio o sentimento que eu poderia seguir pra onde quisesse, que a bússola foi retirada e que eu estava por conta própria e isso não era um problema. Ao mesmo tempo me veio a contestação “mas já não era assim antes?”.

Não sei. Por hora, naquele dia, isso me pareceu o bastante.

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